Sem pretender pôr em causa o poder judicial, embora seja no mínimo estranho que as suas decisões não possam ser apreciadas por nenhum outro poder legítimo, e usando apenas o direito de opinião, gostaria de falar do que para mim são “causas naturais” ou o que eu pensava que seriam.
Aparentemente, teria sido o excessivo caudal do rio em determinado momento crítico a causa da tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Ora, esse caudal ficou longe da intensidade que provoca catástrofes noutras partes do mundo. As chuvas, em condições normais, são atenuadas nos seus efeitos pela dispersão territorial, pela retenção de água, pelo relevo, pela porosidade absorvente dos solos e pelo escoamento das águas. Aquilo que vem contrariar esta “normalidade” são as barragens, as desflorestações maciças, a construção selvagem em zonas de protecção dos recursos naturais, etc. Como é bom de ver, são acções efectivas dos homens.
Para mais, o tal caudal excessivo foi provocado por grandes descargas das barragens a montante e por razões de auto-segurança. Significa isto que ao ser tomada a decisão de mandar abrir as comportas, não foram acauteladas as consequências que poderiam provocar. A isto, a Justiça não ligou tal como não ligou a outros factos importantes.
Ironicamente, alguém dizia que os culpados da queda da ponte foram, para além do senhor que lhe deu o nome, todos aqueles que com o seu peso e pela inércia do seu movimento e dos veículos estavam naquele momento a atravessá-la. Apesar dos esforços, não será fácil provar que as causas naturais se conjugassem por si só e deliberadamente para fazer cair a ponte. Assim, só por culpa das vítimas é que se deu a catástrofe.
Voltando à ironia, que tal obrigar essas vítimas a indemnizar o Estado pelos prejuízos causados ao erário público?
quarta-feira, abril 21, 2004
segunda-feira, março 29, 2004
Tabaco
A Irlanda deu novamente uma lição ao mundo. "Já não bastava" terem feito as opções correctas em termos de desenvolvimento na altura devida, optando pela educação em detrimento das auto-estradas, por exemplo, como decidiram cortar o mal pela raiz, proibindo o consumo de tabaco em qualquer espaço fachado.
Para registarmos a coragem da medida, devemos lembrar a importância do tradicional "pub" no dia-a-dia "irish" onde música, cerveja e cigarros criam um ambiente notável.
Custos eleitorais de tal medida? Os ganhos a nível da saúde pública são mais importantes.
Para registarmos a coragem da medida, devemos lembrar a importância do tradicional "pub" no dia-a-dia "irish" onde música, cerveja e cigarros criam um ambiente notável.
Custos eleitorais de tal medida? Os ganhos a nível da saúde pública são mais importantes.
segunda-feira, março 15, 2004
Espanha
O recente ataque terrorista a Espanha e os desenvolvimentos que se lhe seguiram até ao apuramento dos resultados das eleições de ontem merecem algumas reflexões.
Antes de mais a disputa ETA / AL QAEDA como se de um jogo de futebol se tratasse ignorou o mais importante: houve um ataque terrorista. Que importa saber se foi uma ou outra? Então não têm existido contactos entre as duas? Alguma é melhor que a outra no sentido em que possamos dar o benefício da dúvida?
E os espanhóis? Terão querido castigar o apoio aos Estados Unidos? Mas não é esse apoio uma manifestação de combate ao terrorismo, chame-se ele ETA ou AL QAEDA? O que terá contribuído mais para a súbita mudança no sentido de voto em poucas horas?
No fundo, a conclusão a tirar pelos autores do atentado é que valeu a pena. O medo e a incompreensão deu os seus frutos e, num repente, todos esqueceram os milhares de mortos em Nova Iorque.
Mortos que merecem, no mínimo, o mesmo respeito que as vítimas da ETA.
Antes de mais a disputa ETA / AL QAEDA como se de um jogo de futebol se tratasse ignorou o mais importante: houve um ataque terrorista. Que importa saber se foi uma ou outra? Então não têm existido contactos entre as duas? Alguma é melhor que a outra no sentido em que possamos dar o benefício da dúvida?
E os espanhóis? Terão querido castigar o apoio aos Estados Unidos? Mas não é esse apoio uma manifestação de combate ao terrorismo, chame-se ele ETA ou AL QAEDA? O que terá contribuído mais para a súbita mudança no sentido de voto em poucas horas?
No fundo, a conclusão a tirar pelos autores do atentado é que valeu a pena. O medo e a incompreensão deu os seus frutos e, num repente, todos esqueceram os milhares de mortos em Nova Iorque.
Mortos que merecem, no mínimo, o mesmo respeito que as vítimas da ETA.
segunda-feira, março 08, 2004
Liberdade / Censura
Não fosse repetir-se o caso de, num gesto mais brusco, um seio surgir imprevistamente numa transmissão televisiva, a recente cerimónia da entrega dos Óscares foi transmitida pela cadeia de televisão americana ABC não em directo mas com um atraso de cinco segundos. O objectivo foi garantir que nenhuma imagem “imprópria” seria transmitida para casa de todos os que seguiam o espectáculo.
Em França, há alguns dias atrás, os organizadores dos prémios “Victoires de la Musique” decidiram fazer a transmissão televisiva com um desfasamento de dez minutos, invocando “razões técnicas”.
Num e noutro caso, evitam-se dessa forma eventuais comentários e declarações “políticas” em locais à partida “apolíticos”, mas que são aproveitados por “alguns” para fazer passar a sua mensagem contra um governo ou uma determinada política.
Mas a questão é outra ou pode ser outra. Liberdade de expressão é a liberdade que temos de falar sem qualquer receio de sermos calados, é a possibilidade que temos de dar a nossa opinião sem qualquer tipo de silenciamento. Obviamente, pressupõe-se a responsabilização daquilo que é dito por quem diz.
Parece-me desta forma que o conhecimento prévio do discurso e as suas aceitação e aprovação atempadas por parte, quer dos órgãos de comunicação social, quer do Estado, são inaceitáveis numa sociedade democrática. Podem até existir situações em que os riscos da liberdade aconselham alguma prudência à sociedade, mas um seio nu está longe de justificar a limitação de falar sem escolhos no caminho.
Em França, há alguns dias atrás, os organizadores dos prémios “Victoires de la Musique” decidiram fazer a transmissão televisiva com um desfasamento de dez minutos, invocando “razões técnicas”.
Num e noutro caso, evitam-se dessa forma eventuais comentários e declarações “políticas” em locais à partida “apolíticos”, mas que são aproveitados por “alguns” para fazer passar a sua mensagem contra um governo ou uma determinada política.
Mas a questão é outra ou pode ser outra. Liberdade de expressão é a liberdade que temos de falar sem qualquer receio de sermos calados, é a possibilidade que temos de dar a nossa opinião sem qualquer tipo de silenciamento. Obviamente, pressupõe-se a responsabilização daquilo que é dito por quem diz.
Parece-me desta forma que o conhecimento prévio do discurso e as suas aceitação e aprovação atempadas por parte, quer dos órgãos de comunicação social, quer do Estado, são inaceitáveis numa sociedade democrática. Podem até existir situações em que os riscos da liberdade aconselham alguma prudência à sociedade, mas um seio nu está longe de justificar a limitação de falar sem escolhos no caminho.
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
Greves à sexta-feira
Lembrei-me deste tema ao ler um artigo de Lucy Kellaway no "Diário Económico" de 14 de Janeiro, intitulado "O seu slôgane para a produtividade: não faça nada, ponto final". A autora anunciava que havia recebido "um folheto de uma consultora que dizia que a actividade da maioria das empresas girava em torno da desordem", acrescentando que "a desorganização deve-se, acima de tudo, ao excesso de informação e de tecnologia". O que, por sua vez, "implica numerosas reuniões, partilha ou transferência de responsabilidades e duplicação de esforços". Sem ser especialista, parece-me serem estes aspectos facilmente compreensíveis à luz dos princípios da Termodinâmica que regulam, em particular, a transferência e a degradação da energia e da informação. Dessa forma, uma medida da desordem é minimizada nos processos quase estáticos e todos os processos em que intervém o atrito são geradores de desordem.
Digam lá se em Portugal, desde há muito tempo, não são conhecidos os princípios da termodinâmica...
Fazer pouco ou fazer que se faz minimiza a desordem e contribui para uma maior eficiência dos serviços. O orçamento de uma instituição pública que atribui noventa por cento a gastos com o pessoal e os restantes dez por cento a outros gastos, desde o papel higiénico aos computadores é, afinal, coerente e entendível. Assim, a falta de papel desincentiva a utilização dos lavabos e o impedimento de revoluções na informática inviabiliza o acesso às auto-estradas da informação que, nos nossos serviços públicos, não passam de caminhos de cabras.
A lição a retirar é esta: "Não fazer nada para melhor fazer". Mas o que terá este texto a ver com o título? Pois bem, há quem defenda que as greves deveriam ser marcadas para as quintas-feiras, mas somente após o Governo dar garantia de haver tolerância de ponto no dia seguinte...
Digam lá se em Portugal, desde há muito tempo, não são conhecidos os princípios da termodinâmica...
Fazer pouco ou fazer que se faz minimiza a desordem e contribui para uma maior eficiência dos serviços. O orçamento de uma instituição pública que atribui noventa por cento a gastos com o pessoal e os restantes dez por cento a outros gastos, desde o papel higiénico aos computadores é, afinal, coerente e entendível. Assim, a falta de papel desincentiva a utilização dos lavabos e o impedimento de revoluções na informática inviabiliza o acesso às auto-estradas da informação que, nos nossos serviços públicos, não passam de caminhos de cabras.
A lição a retirar é esta: "Não fazer nada para melhor fazer". Mas o que terá este texto a ver com o título? Pois bem, há quem defenda que as greves deveriam ser marcadas para as quintas-feiras, mas somente após o Governo dar garantia de haver tolerância de ponto no dia seguinte...
terça-feira, fevereiro 03, 2004
Ambiente
Há uns anos atrás, esforçaram-se em convencer-nos a separar o lixo. Desde os bancos da escola, onde esperavam que os mais miúdos passassem palavra em casa aos mais velhos, pedia-se que os portugueses tivessem consciência que podiam ter uma melhor qualidade de vida. Tudo dependia do seu comportamento. Distribuiram-se contentores azuis, brancos, amarelos e verdes que receberiam jornais, vidros, plásticos, pilhas e o restante lixo diário. Em casa, os mais conscienciosos atravancavam a cozinha com vários sacos de plástico de cores distintas onde faziam a recolha. Passados estes anos, confirma-se aquilo de que se suspeitou desde o início: 90 por cento dos resíduos sólidos urbanos continuam a ser encaminhados para aterros ou para queima. Quer dizer, o que é separado por nós acaba por ser queimado e destruído junto. Melhor ambiente e melhor qualidade de vida? Alguém continua a fazer de nós parvos...
terça-feira, janeiro 27, 2004
Memória
Quando M. sorriu pela última vez, o pai não estava na sala. Regressou a tempo de ouvir o nome do filho ser gritado por milhares de gargantas. Nada a que não estivesse habituado. M.era um artista e, como tal, tocava fundo a sensibilidade dos que o aplaudiam. Quando entrou naquela campo encharcado, imediatamente deu nas vistas. O cabelo louro avistava-se do lugar mais afastado da bancada e pela elegância dos seus movimentos pressentia-se que algo estava para acontecer. E aconteceu. M. participou e quase concluiu o movimento que faria a multidão levantar-se e aplaudir. Tinha valido a pena. Sair de casa numa noite invernosa, percorrer centenas de quilómetros e esperar oitenta e nove minutos por aquele momento, tinha valido a pena. Antes do sorriso, M. olhou para as bancadas em seu redor. A emoção das pessoas e a sua felicidade tinham a ver consigo. Ele tinha ajudado a fazê-los felizes. Ensaiou outros movimentos, combinou com os companheiros, sujou os calções, molhou a camisola com o seu suor mas a multidão estava rendida. M. era um dos seus e cumpriu o que esperavam dele. Quando M. sorriu pela última vez até a bola, rendida pelo seu toque de artista, se afastou para longe...
segunda-feira, janeiro 19, 2004
Memória
Começam hoje a ser recolhidos os depoimentos das vítimas de pedofilia nos Açores para memória futura. Ao contrário do que sucedeu no continente o juíz de Ponta Delgada considerou urgente tal recolha. Por muitas voltas que o processo dê e por muitas ameaças que as vítimas sofram, algo vai ficar registado e, espera-se, em segurança. No continente, de comédia em comédia e de pressão em pressão, as verdadeiras vítimas dos abusos, as crianças, são quase abandonadas e ignoradas...
Timing
As televisões foram pródigas em imagens, um mês depois de ter sido formalmente acusado, começou o julgamento de Michael Jackson. Quer isto dizer que nos Estados Unidos da América um mês é suficiente para o inquérito, marcação e começo do julgamento.Estes hábitos não podem passar de uns países para outros?
segunda-feira, janeiro 12, 2004
Amor, Amor
"Quando o amor morrer
dentro de ti,
Caminha para o alto
onde haja espaço,
E com o silêncio
outrora pressentido
Molda em duas colunas
os teus braços.
Relembra a confusão
dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonhos de amor,
teu peito ferido
Espalhou generoso
aos quatro ventos.
Aos que passarem
dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes
de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas
lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma
o inventário
Do templo onde a vida
ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram."
Ruy Cinatti, in Poemas de Amor
dentro de ti,
Caminha para o alto
onde haja espaço,
E com o silêncio
outrora pressentido
Molda em duas colunas
os teus braços.
Relembra a confusão
dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonhos de amor,
teu peito ferido
Espalhou generoso
aos quatro ventos.
Aos que passarem
dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes
de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas
lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma
o inventário
Do templo onde a vida
ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram."
Ruy Cinatti, in Poemas de Amor
terça-feira, janeiro 06, 2004
Dois
No meio de todo este estado depressivo que grassa por aí, é justo evidenciar alguns oasis que manifestamente nos ajudam a sobreviver. Refiro-me ao lançamento do Dois. Deve dizer-se, por ser justo e merecido, que a administração de Almerindo Marques colocou de novo a RTP nos carris depois de um profundo e prolongado descarrilamento de gerências anteriores. Começou por limpar a casa, negociando a saída de trabalhadores excedentários, alguns em idade de reforma, reformulou alguns vencimentos escandalosos da era Rangel, colocou na Informação as pessoas capazes de praticar e dirigir um jornalismo sério, inteligente e nada partidário, abriu o conhecido segundo canal à sociedade civil. E se este último ponto parece chavão, recorde-se que estamos a falar de dez horas semanais, o que em televisão é algo extraordinário. Resultados? É cedo, mas por aquilo que se conhece do anúncio da grelha semanal, estão aí todos os ingredientes para o Dois se tornar um canal de referência.
quinta-feira, dezembro 18, 2003
(IN)JUSTIÇA
O caminho demasiado obscuro que este caso da pedofilia parece estar a seguir é mau para todos nós. Estas libertações decididas por instâncias superiores e os artifícios engenhosos que todos utilizam - Advogados, Ministério Público, Juíz -, se bem que cobertos certamente pela legalidade, dão uma péssima imagem ao caso. Especialmente porque a opinião pública começa nesta altura a duvidar se o processo irá até às últimas consequências. Ou se provavelmente não será apenas o famoso Bibi, como "elo mais fraco", o único acusado e a única "vítima" no processo. Esperemos novos episódios.
quarta-feira, dezembro 17, 2003
Poesia Argelina
Avant toute chose
"Pour qui écrivent les poètes?
Pour quelle beauté luisent les yeux du lecteur?
Pour quel prix?
L'inestimable lumière n'éclaire
Pas tout à fait les pages de ce livre,
Une main mendiante de lignes
Va les écrire avant toute chose,
Avant le destin.
Avant toute page, je remercie
La clarté qui a refusé l'or du sommeil,
je remercie l'insomnie
De l'autre main qui a veillé,
Je remercie tous les autres sans oublier
L'autre lecteur qui n'a pas existé.
Beauté et belles choses, désertez le vide
Jusqu'à ce que ce livre soit rempli de voiles...
Que toute chose soit nocturne d'avance!
je ne suis pas tout à fait dans la nuit,
Je suis...
El-Mahid Acherchour
"Pour qui écrivent les poètes?
Pour quelle beauté luisent les yeux du lecteur?
Pour quel prix?
L'inestimable lumière n'éclaire
Pas tout à fait les pages de ce livre,
Une main mendiante de lignes
Va les écrire avant toute chose,
Avant le destin.
Avant toute page, je remercie
La clarté qui a refusé l'or du sommeil,
je remercie l'insomnie
De l'autre main qui a veillé,
Je remercie tous les autres sans oublier
L'autre lecteur qui n'a pas existé.
Beauté et belles choses, désertez le vide
Jusqu'à ce que ce livre soit rempli de voiles...
Que toute chose soit nocturne d'avance!
je ne suis pas tout à fait dans la nuit,
Je suis...
El-Mahid Acherchour
terça-feira, dezembro 16, 2003
Saddam
A tão desejada prisão de Saddam é uma vitória de todos os que, sem fantasias nem fingimentos, preferem a liberdade e a democracia ao terrorismo. A verdade é que há opções que se vão fazendo e que são decisivas para o nosso futuro global.Uns preferem apoiar os assassinos, outros a sua prisão.Pode ser que desta vez descubram a tempo que a figura não é de plástico...
terça-feira, dezembro 09, 2003
Sophia
Podemos começar um dia chuvoso com um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen? Devemos...
"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."
"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."
quinta-feira, dezembro 04, 2003
António Lobo Antunes
O Prémio da União Latina recentemente atribuído ao autor passou um pouco ao lado dos serviços noticiosos. É claro que, hoje em dia, se assiste cada vez mais a uma "tabloidização" dos noticiários televisivos mas comparando com a atribuição do Nobel a Saramago, Lobo Antunes foi injustamente esquecido. Ninguém pode ignorar o contributo que o seu "acto criativo" trouxe às letras portuguesas. É claro que não é uma leitura fácil mas aqui voltamos ao problema do facilitismo escolar. Se temos de fazer um esforço para ler um bom escritor, façamo-lo porque ficaremos certamente mais ricos e mais cultos. Afinal de contas, nada se faz sem esforço. E não lembremo-nos que o autor não começou a escrever ontem. Tem já uma obra longa que atravessa a nossa vida e aqueles que foram os marcos dos últimos trinta anos e que correspondem não só à nossa vida democrática mas também a vivências anteriores. Sem pretender fazer futurologia, parece-me que a Academia Sueca irá anunciar a curto prazo outro Nobel português da literatura.
terça-feira, dezembro 02, 2003
Propinas
O senhor presidente da Associação de Estudantes da Associação Académica de Coimbra tem vinte seis anos. De ano a ano, este senhor lá anda a "viver" Coimbra, na plena acepção da palavra. Estudante, bom estudante é que pelos vistos não é. Deveremos continuar a pagar as propinas deste senhor? A resposta é óbvia...
quinta-feira, novembro 27, 2003
Sophia
"Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro."
Dia do Mar (1947)
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro."
Dia do Mar (1947)
quarta-feira, novembro 26, 2003
Gonçalo passa a vida a organizar férias que nunca fará. Adquire todas as ferramentas necessárias: mapas, guias, revistas e vídeos. Contacta pousadas e hotéis. Nada é deixado ao acaso. Na maior parede do quadro, está exposto um enorme mapa-mundo. Em cima de uma estante, uma pequena caixa de alfinetes coloridos que hão-de assinalar tantos destinos por cruzar.
Certa vez, encontrei-o feliz a distribuir alfinetes pelas mil ilhas das Filipinas. Ignorando ainda as suas manias, perguntei-lhe quando tencionava partir. Gonçalo, muito ofendido, respondeu-me que não pretendia sair de casa e que não trocava a segurança dos seus sonhos pelo desconforto da realidade num país do outro mundo. Mais tarde, lembrar-me-ia que o real é imperfeito e é isso que o distingue dos sonhos. Tudo o que dói é real. É poi a dor que assinala a fronteira entre o sonho e a realidade.
Lembro-me também em todos aqueles que pensam decorar o apartamento. Digerem-se revistas de decoração, questionam-se arquitectos e designers, imaginam-se paredes, tons e luzes. Quando as obras terminam, descobrem-se as imperfeições, os dedos sujos nas paredes, as traições, o real. E lá foi a casa dos sonhos...
Os sonhos não pagam impostos. Um apartamento bem sonhado nunca tem problemas de infiltrações, nem vizinhos barulhentos, nem sequer tem andares por cima. Imagino-o com um terraço amplo por cima e uma piscina não muito grande. Vou passar a ler as páginas do imobiliário, tentando descobri-lo.
Quando ontem liguei a Gonçalo avisou-me logo que não podia falar comigo pois estava quase a pousar no Rio de Janeiro. Incrédulo, pedi-lhe que repetisse. Insistiu que estava aos comandos de um jumbo, já baixara o trem de aterragem e aguardava as instruções da torre de controlo. Desliguei desejando não ter perturbado a operação.
Mais tarde haveria de ligar-me explicando que tinha comprado um simulador de voo e que nos últimos dias pouco mais tinha feito senão voar sobre Paris, Londres, Nova Iorque. Inexperiente, despenhou-se sete vezes e matou mais de mil passageiros.
Gonçalo, porém, nunca sofreu nem um arranhão. “É o triunfo do sonho”, assegurou-me.
Certa vez, encontrei-o feliz a distribuir alfinetes pelas mil ilhas das Filipinas. Ignorando ainda as suas manias, perguntei-lhe quando tencionava partir. Gonçalo, muito ofendido, respondeu-me que não pretendia sair de casa e que não trocava a segurança dos seus sonhos pelo desconforto da realidade num país do outro mundo. Mais tarde, lembrar-me-ia que o real é imperfeito e é isso que o distingue dos sonhos. Tudo o que dói é real. É poi a dor que assinala a fronteira entre o sonho e a realidade.
Lembro-me também em todos aqueles que pensam decorar o apartamento. Digerem-se revistas de decoração, questionam-se arquitectos e designers, imaginam-se paredes, tons e luzes. Quando as obras terminam, descobrem-se as imperfeições, os dedos sujos nas paredes, as traições, o real. E lá foi a casa dos sonhos...
Os sonhos não pagam impostos. Um apartamento bem sonhado nunca tem problemas de infiltrações, nem vizinhos barulhentos, nem sequer tem andares por cima. Imagino-o com um terraço amplo por cima e uma piscina não muito grande. Vou passar a ler as páginas do imobiliário, tentando descobri-lo.
Quando ontem liguei a Gonçalo avisou-me logo que não podia falar comigo pois estava quase a pousar no Rio de Janeiro. Incrédulo, pedi-lhe que repetisse. Insistiu que estava aos comandos de um jumbo, já baixara o trem de aterragem e aguardava as instruções da torre de controlo. Desliguei desejando não ter perturbado a operação.
Mais tarde haveria de ligar-me explicando que tinha comprado um simulador de voo e que nos últimos dias pouco mais tinha feito senão voar sobre Paris, Londres, Nova Iorque. Inexperiente, despenhou-se sete vezes e matou mais de mil passageiros.
Gonçalo, porém, nunca sofreu nem um arranhão. “É o triunfo do sonho”, assegurou-me.
Vi ontem o filme "A Janela em Frente" de Ferzan Ozpetek. É notável. Aconselho-o vivamente a todos os que querem aprender como o presente se pode enriquecer com a experiência do passado. E digo isto porque é manifesto que os nossos jovens perderam completamente a memória da História e o sentido que, a partir dela, poderiam extrair para a vida.Magnífica, mais uma vez, a interpretação de Massimo Girotti - bem conhecido de filmes de Visconti e Pasolini - que entretanto faleceu e não pôde já assistir ao filme. Como um mestre, consegue tudo dizer e tudo revelar com o mínimo de palavras.
terça-feira, novembro 25, 2003
Pela manhã um poema de João Miguel Fernandes Jorge:
"Os olhos são castanhos, os seus
Contou-me o crescer da casa, por
onde se desenvolveram os quartos
e os muros e foi ele próprio
quem plantou o magnólio
no sítio extremo do jardim.
«Muito obrigado», disse-lhe. «De
nada», respondeu-me. E
mesmo este «de nada» era
o seu rosto aceso, dia que vem
longe, ainda, por ofertar."
"Os olhos são castanhos, os seus
Contou-me o crescer da casa, por
onde se desenvolveram os quartos
e os muros e foi ele próprio
quem plantou o magnólio
no sítio extremo do jardim.
«Muito obrigado», disse-lhe. «De
nada», respondeu-me. E
mesmo este «de nada» era
o seu rosto aceso, dia que vem
longe, ainda, por ofertar."
segunda-feira, novembro 24, 2003
Mário Rui de Carvalho, o famoso repórter de imagem da CBS, dá uma verdadeira lição no Público de ontem sobre procedimentos que devem ser respeitados pelos que partem para um cenário de guerra. Existe todo um trabalho anterior de organização ( o intérprete, o guia, o motorista, a segurança, ... ) que deve ser levado em linha de conta para que nada fique entregue aos caprichos da sorte e do acaso. Não podemos pensar que "não deve acontecer nada"...
quarta-feira, novembro 19, 2003
Numa altura em que todos os principais serviços de notícias das televisões portuguesas demoram bem mais do que uma hora, deixem-me fazer uma breve comparação. Na noite de segunda-feira, 27 de Outubro, o telejornal mais importante da televisão norte-americana CBS começou à hora marcada e acabou, como sempre, exactamente 29 minutos depois de se ter iniciado.
Começámos por ver tratado o tema do dia, os catastróficos incêndios na Califórnia. Curiosamente, as semelhanças com o que aconteceu em Portugal foram gritantes: bombeiros queixando-se da falta de meios, suspeitas de incêndios de origem criminosa, queixas sobre matas mal limpas, hectares e hectares de floresta devastados. Quatro jornalistas em trabalho de reportagem nos lugares mais flagelados entraram em directo na emissão e remeteram-se, e bem, a um papel secundário dando voz a casos humanos que documentavam a imensidão da tragédia.
Seguiu-se um pequeno apontamento sobre eventuais consequências de um medicamento no cancro do pâncreas, uma notícia sobre a compra de um banco em Boston e a evolução dos índices das bolsas de Nova Iorque. Houve ainda uma reportagem de consumo, onde era tratado um defeito de fabrico de um dos carros mais populares nos Estados Unidos.
Para terminar, o pivot apresentou uma peça onde se explicava os motivos da violência dos incêndios deste ano.
Se nestes 29 minutos se contabilizarem ainda três intervalos para publicidade, percebemos as vantagens de um país onde deve haver uma enorme escassez de notícias...
Começámos por ver tratado o tema do dia, os catastróficos incêndios na Califórnia. Curiosamente, as semelhanças com o que aconteceu em Portugal foram gritantes: bombeiros queixando-se da falta de meios, suspeitas de incêndios de origem criminosa, queixas sobre matas mal limpas, hectares e hectares de floresta devastados. Quatro jornalistas em trabalho de reportagem nos lugares mais flagelados entraram em directo na emissão e remeteram-se, e bem, a um papel secundário dando voz a casos humanos que documentavam a imensidão da tragédia.
Seguiu-se um pequeno apontamento sobre eventuais consequências de um medicamento no cancro do pâncreas, uma notícia sobre a compra de um banco em Boston e a evolução dos índices das bolsas de Nova Iorque. Houve ainda uma reportagem de consumo, onde era tratado um defeito de fabrico de um dos carros mais populares nos Estados Unidos.
Para terminar, o pivot apresentou uma peça onde se explicava os motivos da violência dos incêndios deste ano.
Se nestes 29 minutos se contabilizarem ainda três intervalos para publicidade, percebemos as vantagens de um país onde deve haver uma enorme escassez de notícias...
A partir do momento em que a comunicação social descobriu a justiça como fonte de espectáculo e como um meio para subir nas sondagens o mundo está diferente. Nos anos iniciais da televisão privada, é verdade que tínhamos o crime e o sexo mas, no fim de contas, o discurso é idêntico: antes davam-nos os agressores, agora dão-nos os justiceiros. Desiludam-se os que pensam que podemos colocar de um lado os bons e do outro os maus.
Diz-se que a televisão “deforma” a pessoa, alguém que conhecemos magro torna-se, no pequeno ecran, mais gordo. Ora, é mais ou menos isso que acontece quando um político está a falar para a TV. Considerando que o seu objectivo comunicacional é tentar convencer o espectador, o seu discurso visa esse e só esse objectivo. Se a sondagem de popularidade do mês seguinte for positiva, então o objectivo foi alcançado. Lamentavelmente, conceitos como verdade, mentira, rigor são pouco importantes e passam um pouco ao lado. Decisivas são a estética e a fluência da narrativa. E aqui ficamos nós, pobres espectadores, desarmados, incrédulos e desconfiados. Mas eis que chegam os comentadores.
Tendo em conta a nossa surpresa, o comentador funciona como tradutor, alguém que, falando a nossa língua, nos ajuda a descodificar a mensagem. Se o comentador também for político, então podemos entender as manhas que se escondem no meio dos discursos.
Existem situações em que a mentira é detectada mas como passou a ser vista como um hábito ou um ardil e já não um defeito de carácter, isso não tem consequências. Voltando ao espectáculo e considerando que este é o acto do imediato, é o brilho que não dura para além do momento, a memória está fora deste “jogo”, nem sempre se torna nítido que alguém esteja a mentir.
Talvez seja por tudo isto que a política anda afastada das pessoas, apesar de precisar delas e de se servir delas diariamente. Das pessoas comuns que “habitamos” num outro mundo, não virtual mas bem real. Um mundo que é o oposto do espaço dos meios de comunicação social.
P.S. Tudo isto explica a intranquilidade. Se o nosso sistema judicial existe para ser o espaço de isenção e da verdade, que dizer da enorme quantidade de procedimentos entre o real acontecido e a sentença definitiva? O lugar criado para o conhecimento da verdade não é mais do que um lugar onde tudo se vai enredando e adiando de recurso em recurso.
Diz-se que a televisão “deforma” a pessoa, alguém que conhecemos magro torna-se, no pequeno ecran, mais gordo. Ora, é mais ou menos isso que acontece quando um político está a falar para a TV. Considerando que o seu objectivo comunicacional é tentar convencer o espectador, o seu discurso visa esse e só esse objectivo. Se a sondagem de popularidade do mês seguinte for positiva, então o objectivo foi alcançado. Lamentavelmente, conceitos como verdade, mentira, rigor são pouco importantes e passam um pouco ao lado. Decisivas são a estética e a fluência da narrativa. E aqui ficamos nós, pobres espectadores, desarmados, incrédulos e desconfiados. Mas eis que chegam os comentadores.
Tendo em conta a nossa surpresa, o comentador funciona como tradutor, alguém que, falando a nossa língua, nos ajuda a descodificar a mensagem. Se o comentador também for político, então podemos entender as manhas que se escondem no meio dos discursos.
Existem situações em que a mentira é detectada mas como passou a ser vista como um hábito ou um ardil e já não um defeito de carácter, isso não tem consequências. Voltando ao espectáculo e considerando que este é o acto do imediato, é o brilho que não dura para além do momento, a memória está fora deste “jogo”, nem sempre se torna nítido que alguém esteja a mentir.
Talvez seja por tudo isto que a política anda afastada das pessoas, apesar de precisar delas e de se servir delas diariamente. Das pessoas comuns que “habitamos” num outro mundo, não virtual mas bem real. Um mundo que é o oposto do espaço dos meios de comunicação social.
P.S. Tudo isto explica a intranquilidade. Se o nosso sistema judicial existe para ser o espaço de isenção e da verdade, que dizer da enorme quantidade de procedimentos entre o real acontecido e a sentença definitiva? O lugar criado para o conhecimento da verdade não é mais do que um lugar onde tudo se vai enredando e adiando de recurso em recurso.
terça-feira, novembro 18, 2003
Fundamental o texto de ontem de Maria do Carmo Vieira no Público de ontem sobre educação. Ele ajuda a perceber o que tem acontecido para que os alunos estejam cada vez pior preparados quando saem de lá. É a lei do "facilitismo" que tem imperado. Haverá remédio? Serão as ciências ditas da "educação" as únicas responsáveis?
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