A questão das Scuts é demasiado importante para passar em claro no nosso meio. Evidentemente que, quando se trata de pagar algo que até ao momento é gratuito, se trata de uma medida impopular e problemática. Contudo era bom que todos discutissem o assunto de forma séria e evitassem o folclore das manifestações que acabam em fiasco.
Durante uns tempos lançou-se a ideia que havia almoços grátis. Tudo era facilidade e quem viesse depois que tratasse do assunto. Não há modo mais agradável de fazer política: temos uma situação estável, podemos fazer umas flores, assumir uns quantos compromissos porque quando vier a conta, já cá não estaremos… Foi desta maneira que começou a questão das ditas Scuts: elas foram construídas por privados com a promessa de que o Estado lhes pagaria ao longo dos anos. Quer isto dizer que antes, quando tínhamos uma boa situação económica, não havia dinheiro para essas obras, pelo que o governo da altura, liderado por Guterres, inventou uma engenharia financeira que lhe permitia apresentar ao eleitorado obra feita, passando a factura para orçamentos futuros. Façamos uma pausa para, distanciados que estamos já alguns anos, avaliar este comportamento. Como apelidá-lo? Irresponsável, interesseiro, cínico… O que as mentes superiores esperavam era que o crescimento económico gerasse receitas públicas suficientes para que o encargo das “portagens virtuais” fosse suportado pelos futuros orçamentos.
A verdade é que o mundo não se resume a auto-estradas. E havendo outras áreas onde investir, é perfeitamente natural e justo que os seus utilizadores as paguem, sobretudo em zonas onde existe mais do que uma alternativa de percurso.
Logicamente, muitos portugueses protestarão. Muitos mais do que os que participaram na manifestação em Castelo Branco. Convinha talvez que avaliassem a situação e soubessem a que porta bater para pedir responsabilidades. Foi aliás esclarecedor a ausência do senhor Cravinho quando chamado à comissão de inquérito na Assembleia da República. Consciência perturbada? Não havia necessidade…
A vida é mesmo assim: não há almoços grátis e são certas formas de fazer política que dizem tudo sobre os seus autores.
segunda-feira, novembro 22, 2004
sexta-feira, novembro 19, 2004
Os anti-sistema
O Euro trouxe o sentimento patriótico e a confiança. Durante uns dias, orgulhámo-nos de ser portugueses, falámos bem de nós, estivemos nos títulos dos jornais de todo o mundo. Mostrámos que somos homens e mulheres fantásticos, capazes de obras meritórias, tantas vezes esquecidas por décadas de coisas pequeninas. Quando não existe inveja, calúnia ou tráfico, qualquer que ele seja, Portugal tem valor e apetece cá viver.
E a outra face da moeda? Quem são os outros? Encontramo-los todos os dias e vivem à sombra do poder da altura, qualquer que ele seja. Ocupam todas as profissões e prometem tudo o que não é seu para dar. Vivem à conta dos impostos que não pagam e anunciam-se como “anti-sistema”. Podem ser gordos ou magros, altos ou baixos. Todos os conhecem por não ter qualidades. Triunfam através de expedientes, pisam quem se lhes atravessa no caminho, são mesquinhos e invejosos. Andam acompanhados por cães ferozes que pretensamente lhes dão um ar de seriedade que um qualquer curso superior não conseguiu. O emprego serve apenas para ir buscar o vencimento no final do mês. Aí não são nada “anti-sistema” e contam as notinhas como os outros. Não fazem nada especialmente bem. Escrevem português com erros, falam convictamente do que ignoram e criam mau ambiente onde quer que estejam. Ninguém gosta deles mas não têm a coragem de os pôr na ordem porque os temem. Odeiam a qualidade, invejam e caluniam o sucesso dos “apagados” que estão na mesa do lado. Millôr Fernandes dizia a propósito deles que não fora o seu passado duvidoso e o futuro incerto e ainda poderiam ir longe na vida. O problema para nós é que, em Portugal, até vão: a preguiça alheia e o tráfico, seja ele qual for, permitem-lhe ser director de alguma coisa ou dinamizar um projecto. Iguais a si próprios e manifestamente incompetentes, tiranizam todas as equipas a que pertencem e humilham os verdadeiros competentes. Eis a coroa de glória: o pretenso “anti-sistema” chega a ser condecorado pelo que nunca fez. Como não tem vergonha e ignora que nada fez, deixa andar e aceita o que não merece. A seu lado, o cão feroz ri na sua irracionalidade.
E aí está a outra face dos portugueses que explica as suas insuficiências: os prémios que se atribuem a esta gente sem qualidades.
E a outra face da moeda? Quem são os outros? Encontramo-los todos os dias e vivem à sombra do poder da altura, qualquer que ele seja. Ocupam todas as profissões e prometem tudo o que não é seu para dar. Vivem à conta dos impostos que não pagam e anunciam-se como “anti-sistema”. Podem ser gordos ou magros, altos ou baixos. Todos os conhecem por não ter qualidades. Triunfam através de expedientes, pisam quem se lhes atravessa no caminho, são mesquinhos e invejosos. Andam acompanhados por cães ferozes que pretensamente lhes dão um ar de seriedade que um qualquer curso superior não conseguiu. O emprego serve apenas para ir buscar o vencimento no final do mês. Aí não são nada “anti-sistema” e contam as notinhas como os outros. Não fazem nada especialmente bem. Escrevem português com erros, falam convictamente do que ignoram e criam mau ambiente onde quer que estejam. Ninguém gosta deles mas não têm a coragem de os pôr na ordem porque os temem. Odeiam a qualidade, invejam e caluniam o sucesso dos “apagados” que estão na mesa do lado. Millôr Fernandes dizia a propósito deles que não fora o seu passado duvidoso e o futuro incerto e ainda poderiam ir longe na vida. O problema para nós é que, em Portugal, até vão: a preguiça alheia e o tráfico, seja ele qual for, permitem-lhe ser director de alguma coisa ou dinamizar um projecto. Iguais a si próprios e manifestamente incompetentes, tiranizam todas as equipas a que pertencem e humilham os verdadeiros competentes. Eis a coroa de glória: o pretenso “anti-sistema” chega a ser condecorado pelo que nunca fez. Como não tem vergonha e ignora que nada fez, deixa andar e aceita o que não merece. A seu lado, o cão feroz ri na sua irracionalidade.
E aí está a outra face dos portugueses que explica as suas insuficiências: os prémios que se atribuem a esta gente sem qualidades.
quarta-feira, agosto 25, 2004
Reflexões
Recebi recentemente um e-mail de um tal senhor George Carlin que gostaria de partilhar com os meus leitores.
“O paradoxo do nosso tempo reside no facto de termos edifícios mais altos mas menor capacidade de pensar, vias rápidas mais largas mas uma visão da vida mais curta. Nós gastamos mais mas possuímos menos, compramos mais mas apreciamos menos. Temos casas maiores mas famílias mais pequenas, mais recursos mas menos tempo. Temos maiores níveis de escolaridade mas menor senso, maiores conhecimentos mas menor discernimento, mais especialistas mas mais problemas, mais progressos na medicina mas menos saúde. Bebemos muito, fumamos muito, rimos pouco, conduzimos muito depressa, zangamo-nos muito, ficamos a pé até muito tarde, levantamo-nos muito cansados, lemos muito pouco, vemos muita televisão e rezamos demasiado pouco.
Multiplicamos as nossas posses mas reduzimos os nossos valores. Falamos muito, amamos muito pouco e odiamos muito frequentemente. Aprendemos a sobreviver mas não a viver. Acrescentamos mais anos à vida mas não mais vida aos anos.
Fomos capazes de ir até à Lua e mais longe mas temos problemas em atravessar a rua para conhecer um novo vizinho. Conquistámos o espaço mas não ganhamos o nosso espaço.
Fizemos coisas maiores mas não melhores. Tentamos purificar o ar mas poluímos os países do Sul. Conseguimos ultrapassar a barreira atómica mas não a dos nossos preconceitos.
Escrevemos mais mas aprendemos menos. Planeamos mais mas realizamos menos. Aprendemos a apressar mas não a esperar. Construímos mais computadores para guardar mais informação, para produzir mais cópias que nunca mas comunicamos cada vez menos. Este é o tempo do fast food e das digestões lentas, dos grandes homens e dos pequenos caracteres, dos lucros fáceis e das amizades interesseiras. Estes são os dias dos dois salários mas de mais divórcios, casas mais bonitas mas lares desfeitos. Este é o tempo das viagens rápidas, das fraldas descartáveis, de menosprezar a moralidade, do passar uma noite, dos corpos obesos, dos comprimidos que melhoram o humor, que acalmam, que matam… É um tempo em que há mais na montra que em stock.”
Quando as férias estão no fim, usemos algum do nosso tempo para repensarmos a nossa existência e lembremo-nos que cada dia que nasce é uma nova oportunidade para melhorarmos mais um pouco.
“O paradoxo do nosso tempo reside no facto de termos edifícios mais altos mas menor capacidade de pensar, vias rápidas mais largas mas uma visão da vida mais curta. Nós gastamos mais mas possuímos menos, compramos mais mas apreciamos menos. Temos casas maiores mas famílias mais pequenas, mais recursos mas menos tempo. Temos maiores níveis de escolaridade mas menor senso, maiores conhecimentos mas menor discernimento, mais especialistas mas mais problemas, mais progressos na medicina mas menos saúde. Bebemos muito, fumamos muito, rimos pouco, conduzimos muito depressa, zangamo-nos muito, ficamos a pé até muito tarde, levantamo-nos muito cansados, lemos muito pouco, vemos muita televisão e rezamos demasiado pouco.
Multiplicamos as nossas posses mas reduzimos os nossos valores. Falamos muito, amamos muito pouco e odiamos muito frequentemente. Aprendemos a sobreviver mas não a viver. Acrescentamos mais anos à vida mas não mais vida aos anos.
Fomos capazes de ir até à Lua e mais longe mas temos problemas em atravessar a rua para conhecer um novo vizinho. Conquistámos o espaço mas não ganhamos o nosso espaço.
Fizemos coisas maiores mas não melhores. Tentamos purificar o ar mas poluímos os países do Sul. Conseguimos ultrapassar a barreira atómica mas não a dos nossos preconceitos.
Escrevemos mais mas aprendemos menos. Planeamos mais mas realizamos menos. Aprendemos a apressar mas não a esperar. Construímos mais computadores para guardar mais informação, para produzir mais cópias que nunca mas comunicamos cada vez menos. Este é o tempo do fast food e das digestões lentas, dos grandes homens e dos pequenos caracteres, dos lucros fáceis e das amizades interesseiras. Estes são os dias dos dois salários mas de mais divórcios, casas mais bonitas mas lares desfeitos. Este é o tempo das viagens rápidas, das fraldas descartáveis, de menosprezar a moralidade, do passar uma noite, dos corpos obesos, dos comprimidos que melhoram o humor, que acalmam, que matam… É um tempo em que há mais na montra que em stock.”
Quando as férias estão no fim, usemos algum do nosso tempo para repensarmos a nossa existência e lembremo-nos que cada dia que nasce é uma nova oportunidade para melhorarmos mais um pouco.
quarta-feira, junho 09, 2004
DIA D
Em Fevereiro de 2003, antes da invasão do Iraque, um jornalista americano escrevia, tendo por fundo uma imagem do cemitério militar de Coleville na Normandia: “Estes rapazes morreram para salvar a França dum tirano chamado Adolf Hitler. E hoje, quando outros rapazes da América se preparam para se bater e morrer para salvar o mundo de um outro tirano tão monstruoso, Saddam Hussein, onde estão os franceses?”.
Quando se comemoram os sessenta anos sobre o dia que libertou a Europa do fascismo e do nazismo, a pergunta continua no ar: onde estão os franceses? Pois bem, estão naquela Europa que subestima o hiperterrorismo enquanto se tenta promover a si própria; a Europa que quer ter autonomia política e estratégica mas sempre em complemento dos EUA, de cuja aliança militar depende; a Europa que tem objectivos bem limitados: a segurança no interior do seu território, incluindo a bacia mediterrânica.
Na Normandia, morreram americanos, ingleses, canadianos, australianos e franceses. Terá sido em vão? De acordo com Zachary Selden, director do comité de defesa e segurança da assembleia parlamentar da NATO, “onde a América vê a utilização da força em nome de princípios morais, a Europa vê imperialismo; onde a Europa pergunta por que é que a América quer impor os seus valores, a América considera que esses valores são universais e moralmente absolutos”. É curioso verificar que os novos parceiros europeus se sentem fascinados pela Europa em que entraram, mas ainda olham os EUA como sendo o único país que os pode proteger, se necessário. E isso acontece porque a Europa está, cada vez mais, a ficar à margem de uma história que se muda para outros palcos. O Ocidente está a mudar-se para o (Médio) Oriente, com tudo o que isso encerra de novidade.
A Europa deve continuar a colaborar em garantir a segurança no Afeganistão, em resolver o problema palestiniano, em promover a democracia no mundo árabe, em convencer o Irão a não construir a bomba atómica, e para isso, não poderá ignorar os EUA. Sobretudo, não deverá esquecer que o direito dos povos a serem libertados de despotismos extremistas se sobrepõe ao habitual respeito pelas fronteiras e ao velho princípio de soberania. Hoje, como há sessenta anos na Normandia.
Quando se comemoram os sessenta anos sobre o dia que libertou a Europa do fascismo e do nazismo, a pergunta continua no ar: onde estão os franceses? Pois bem, estão naquela Europa que subestima o hiperterrorismo enquanto se tenta promover a si própria; a Europa que quer ter autonomia política e estratégica mas sempre em complemento dos EUA, de cuja aliança militar depende; a Europa que tem objectivos bem limitados: a segurança no interior do seu território, incluindo a bacia mediterrânica.
Na Normandia, morreram americanos, ingleses, canadianos, australianos e franceses. Terá sido em vão? De acordo com Zachary Selden, director do comité de defesa e segurança da assembleia parlamentar da NATO, “onde a América vê a utilização da força em nome de princípios morais, a Europa vê imperialismo; onde a Europa pergunta por que é que a América quer impor os seus valores, a América considera que esses valores são universais e moralmente absolutos”. É curioso verificar que os novos parceiros europeus se sentem fascinados pela Europa em que entraram, mas ainda olham os EUA como sendo o único país que os pode proteger, se necessário. E isso acontece porque a Europa está, cada vez mais, a ficar à margem de uma história que se muda para outros palcos. O Ocidente está a mudar-se para o (Médio) Oriente, com tudo o que isso encerra de novidade.
A Europa deve continuar a colaborar em garantir a segurança no Afeganistão, em resolver o problema palestiniano, em promover a democracia no mundo árabe, em convencer o Irão a não construir a bomba atómica, e para isso, não poderá ignorar os EUA. Sobretudo, não deverá esquecer que o direito dos povos a serem libertados de despotismos extremistas se sobrepõe ao habitual respeito pelas fronteiras e ao velho princípio de soberania. Hoje, como há sessenta anos na Normandia.
segunda-feira, junho 07, 2004
Jornalismo
1. Falemos hoje de jornalismo. Se alguma conclusão se pode tirar, a partir de acontecimentos registados recentemente em todo o mundo, é que existe um novo relacionamento entre as audiências e os media caracterizado pela crescente afirmação cívica dos leitores. Ao contrário do que sucedia antigamente, hoje em dia os públicos ou uma parte muito significativa deles não se deixam enganar. Eles desejam maior intervenção e mais transparência nos media. Por sua vez, os profissionais da informação exigem dos diferentes serviços públicos e das empresas permanente disponibilidade e transparência. Ora, é isto precisamente o que os cidadãos exigem dos jornalistas. Os avanços da cidadania e do conhecimento tornaram os leitores mais atentos e mais exigentes.
É curioso analisar o contributo que os bloggers estão a criar no mundo do jornalismo. Alguns leitores não se limitam a ler o jornal, a ouvir rádio ou a ver televisão. Alguns tornam-se, eles próprios, autores, criadores de informação que se exprimem nas mais diversas áreas e num novo espaço público. Até a própria função do jornalista se está a modificar através da utilização dos motores de busca que tornam a procura da informação mais eficiente e mais rápida. Tudo isto permite uma grande acessibilidade de conteúdos em todo o mundo, enfatizando o conceito de “aldeia global” onde os cidadãos longínquos se aproximam pela Web.
2. As notícias sobre o mundo das celebridades e dos famosos serão verdadeiras notícias ou simples voyeurismo? Trata-se de um mercado em franca ascensão ligado a canais que emitem 24 horas por dia, à Internet, ao desejo de estar de acordo com o tempo mas ligado também ao desejo de competição com os leitores mais jovens, cuja cultura está muito ligada ao mundo do espectáculo. As grandes audiências conseguidas pelas diversas galas e eleições de misses nas nossas televisões comprovam-no e com a transmissão do último episódio de uma telenovela de sucesso com a presença de actores muito conhecidos, desaparece mesmo uma parte da nossa cultura.
É curioso analisar o contributo que os bloggers estão a criar no mundo do jornalismo. Alguns leitores não se limitam a ler o jornal, a ouvir rádio ou a ver televisão. Alguns tornam-se, eles próprios, autores, criadores de informação que se exprimem nas mais diversas áreas e num novo espaço público. Até a própria função do jornalista se está a modificar através da utilização dos motores de busca que tornam a procura da informação mais eficiente e mais rápida. Tudo isto permite uma grande acessibilidade de conteúdos em todo o mundo, enfatizando o conceito de “aldeia global” onde os cidadãos longínquos se aproximam pela Web.
2. As notícias sobre o mundo das celebridades e dos famosos serão verdadeiras notícias ou simples voyeurismo? Trata-se de um mercado em franca ascensão ligado a canais que emitem 24 horas por dia, à Internet, ao desejo de estar de acordo com o tempo mas ligado também ao desejo de competição com os leitores mais jovens, cuja cultura está muito ligada ao mundo do espectáculo. As grandes audiências conseguidas pelas diversas galas e eleições de misses nas nossas televisões comprovam-no e com a transmissão do último episódio de uma telenovela de sucesso com a presença de actores muito conhecidos, desaparece mesmo uma parte da nossa cultura.
quarta-feira, maio 05, 2004
Condecorações
Regra geral, logo que eleitos os presidentes anunciam sempre a intenção de representar até os que não votaram em si. Sucede que por pensamentos ou palavras, actos ou omissões, esquecem-se da promessa poucos dias depois.
Lembrei-me disto com a recente atribuição da Ordem da Liberdade à senhora Isabel do Carmo. Estranho bastante que uma condecoração que visa “distinguir serviços relevantes prestados em defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação do homem e à causa da liberdade” seja entregue a alguém que tem responsabilidades directas no clima de caos e anarquia que Portugal viveu até ao 25 de Novembro. A menos que, entre tantos comendadores de mérito mais que duvidoso, exista já alguma dificuldade em encontrar candidatos.
Para os mais esquecidos lembro que a senhora foi uma dirigente emblemática do Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias ( PRP-BR ). Entre as suas aventuras contam-se um ataque às instalações da NATO no Pinhal do Arneiro – Fonte da Telha e a uma bateria de canhões ( também integradas no dispositivo da NATO ) em S. António da Charneca – Barreiro. Como era de prever, tais actividades alertaram os Serviços Secretos Militares ocidentais, do Canadá à Turquia, onde passou a estar fichada com a classificação de “terrorista” e a ter vigilância personalizada. Em 1976, a Judiciária e a Secreta Militar, depois de uma vigilância apertada à dupla Carlos Antunes/Isabel do Carmo, concluem que os militantes do PRP-BR os autores dos assaltos a bancos, justificados pela necessidade de obtenção de fundos para armar a classe operária. Até meados de 1978, o PRP-BR terá sido responsável por mais de 30 acções violentas: assaltos à mão armada, quer em bancos, quer em esquadras da PSP, e a morte de um agente da Judiciária. O resto é bem conhecido e faz parte dos nossos hábitos: amnistias, amnistias e amnistias e ninguém foi responsabilizado pela morte do agente Carvalho.
Perante tudo isto, a senhora jamais deu sinais de alguma evolução ideológica e não parece arrependida com os actos do passado. Pelo contrário, parou no tempo e continua a creditar nos perigos do fascismo, em lutas de classes e em revoluções populares.
No intervalo de alguma saída ao estrangeiro, Jorge Sampaio deveria justificar a condecoração às altas instâncias da NATO. Ah, e explicar à família a razão na não atribuição, a nível póstumo, da Ordem da Liberdade ao agente Carvalho.
Lembrei-me disto com a recente atribuição da Ordem da Liberdade à senhora Isabel do Carmo. Estranho bastante que uma condecoração que visa “distinguir serviços relevantes prestados em defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação do homem e à causa da liberdade” seja entregue a alguém que tem responsabilidades directas no clima de caos e anarquia que Portugal viveu até ao 25 de Novembro. A menos que, entre tantos comendadores de mérito mais que duvidoso, exista já alguma dificuldade em encontrar candidatos.
Para os mais esquecidos lembro que a senhora foi uma dirigente emblemática do Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias ( PRP-BR ). Entre as suas aventuras contam-se um ataque às instalações da NATO no Pinhal do Arneiro – Fonte da Telha e a uma bateria de canhões ( também integradas no dispositivo da NATO ) em S. António da Charneca – Barreiro. Como era de prever, tais actividades alertaram os Serviços Secretos Militares ocidentais, do Canadá à Turquia, onde passou a estar fichada com a classificação de “terrorista” e a ter vigilância personalizada. Em 1976, a Judiciária e a Secreta Militar, depois de uma vigilância apertada à dupla Carlos Antunes/Isabel do Carmo, concluem que os militantes do PRP-BR os autores dos assaltos a bancos, justificados pela necessidade de obtenção de fundos para armar a classe operária. Até meados de 1978, o PRP-BR terá sido responsável por mais de 30 acções violentas: assaltos à mão armada, quer em bancos, quer em esquadras da PSP, e a morte de um agente da Judiciária. O resto é bem conhecido e faz parte dos nossos hábitos: amnistias, amnistias e amnistias e ninguém foi responsabilizado pela morte do agente Carvalho.
Perante tudo isto, a senhora jamais deu sinais de alguma evolução ideológica e não parece arrependida com os actos do passado. Pelo contrário, parou no tempo e continua a creditar nos perigos do fascismo, em lutas de classes e em revoluções populares.
No intervalo de alguma saída ao estrangeiro, Jorge Sampaio deveria justificar a condecoração às altas instâncias da NATO. Ah, e explicar à família a razão na não atribuição, a nível póstumo, da Ordem da Liberdade ao agente Carvalho.
quarta-feira, abril 21, 2004
Entre-os-Rios
Sem pretender pôr em causa o poder judicial, embora seja no mínimo estranho que as suas decisões não possam ser apreciadas por nenhum outro poder legítimo, e usando apenas o direito de opinião, gostaria de falar do que para mim são “causas naturais” ou o que eu pensava que seriam.
Aparentemente, teria sido o excessivo caudal do rio em determinado momento crítico a causa da tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Ora, esse caudal ficou longe da intensidade que provoca catástrofes noutras partes do mundo. As chuvas, em condições normais, são atenuadas nos seus efeitos pela dispersão territorial, pela retenção de água, pelo relevo, pela porosidade absorvente dos solos e pelo escoamento das águas. Aquilo que vem contrariar esta “normalidade” são as barragens, as desflorestações maciças, a construção selvagem em zonas de protecção dos recursos naturais, etc. Como é bom de ver, são acções efectivas dos homens.
Para mais, o tal caudal excessivo foi provocado por grandes descargas das barragens a montante e por razões de auto-segurança. Significa isto que ao ser tomada a decisão de mandar abrir as comportas, não foram acauteladas as consequências que poderiam provocar. A isto, a Justiça não ligou tal como não ligou a outros factos importantes.
Ironicamente, alguém dizia que os culpados da queda da ponte foram, para além do senhor que lhe deu o nome, todos aqueles que com o seu peso e pela inércia do seu movimento e dos veículos estavam naquele momento a atravessá-la. Apesar dos esforços, não será fácil provar que as causas naturais se conjugassem por si só e deliberadamente para fazer cair a ponte. Assim, só por culpa das vítimas é que se deu a catástrofe.
Voltando à ironia, que tal obrigar essas vítimas a indemnizar o Estado pelos prejuízos causados ao erário público?
Aparentemente, teria sido o excessivo caudal do rio em determinado momento crítico a causa da tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Ora, esse caudal ficou longe da intensidade que provoca catástrofes noutras partes do mundo. As chuvas, em condições normais, são atenuadas nos seus efeitos pela dispersão territorial, pela retenção de água, pelo relevo, pela porosidade absorvente dos solos e pelo escoamento das águas. Aquilo que vem contrariar esta “normalidade” são as barragens, as desflorestações maciças, a construção selvagem em zonas de protecção dos recursos naturais, etc. Como é bom de ver, são acções efectivas dos homens.
Para mais, o tal caudal excessivo foi provocado por grandes descargas das barragens a montante e por razões de auto-segurança. Significa isto que ao ser tomada a decisão de mandar abrir as comportas, não foram acauteladas as consequências que poderiam provocar. A isto, a Justiça não ligou tal como não ligou a outros factos importantes.
Ironicamente, alguém dizia que os culpados da queda da ponte foram, para além do senhor que lhe deu o nome, todos aqueles que com o seu peso e pela inércia do seu movimento e dos veículos estavam naquele momento a atravessá-la. Apesar dos esforços, não será fácil provar que as causas naturais se conjugassem por si só e deliberadamente para fazer cair a ponte. Assim, só por culpa das vítimas é que se deu a catástrofe.
Voltando à ironia, que tal obrigar essas vítimas a indemnizar o Estado pelos prejuízos causados ao erário público?
segunda-feira, março 29, 2004
Tabaco
A Irlanda deu novamente uma lição ao mundo. "Já não bastava" terem feito as opções correctas em termos de desenvolvimento na altura devida, optando pela educação em detrimento das auto-estradas, por exemplo, como decidiram cortar o mal pela raiz, proibindo o consumo de tabaco em qualquer espaço fachado.
Para registarmos a coragem da medida, devemos lembrar a importância do tradicional "pub" no dia-a-dia "irish" onde música, cerveja e cigarros criam um ambiente notável.
Custos eleitorais de tal medida? Os ganhos a nível da saúde pública são mais importantes.
Para registarmos a coragem da medida, devemos lembrar a importância do tradicional "pub" no dia-a-dia "irish" onde música, cerveja e cigarros criam um ambiente notável.
Custos eleitorais de tal medida? Os ganhos a nível da saúde pública são mais importantes.
segunda-feira, março 15, 2004
Espanha
O recente ataque terrorista a Espanha e os desenvolvimentos que se lhe seguiram até ao apuramento dos resultados das eleições de ontem merecem algumas reflexões.
Antes de mais a disputa ETA / AL QAEDA como se de um jogo de futebol se tratasse ignorou o mais importante: houve um ataque terrorista. Que importa saber se foi uma ou outra? Então não têm existido contactos entre as duas? Alguma é melhor que a outra no sentido em que possamos dar o benefício da dúvida?
E os espanhóis? Terão querido castigar o apoio aos Estados Unidos? Mas não é esse apoio uma manifestação de combate ao terrorismo, chame-se ele ETA ou AL QAEDA? O que terá contribuído mais para a súbita mudança no sentido de voto em poucas horas?
No fundo, a conclusão a tirar pelos autores do atentado é que valeu a pena. O medo e a incompreensão deu os seus frutos e, num repente, todos esqueceram os milhares de mortos em Nova Iorque.
Mortos que merecem, no mínimo, o mesmo respeito que as vítimas da ETA.
Antes de mais a disputa ETA / AL QAEDA como se de um jogo de futebol se tratasse ignorou o mais importante: houve um ataque terrorista. Que importa saber se foi uma ou outra? Então não têm existido contactos entre as duas? Alguma é melhor que a outra no sentido em que possamos dar o benefício da dúvida?
E os espanhóis? Terão querido castigar o apoio aos Estados Unidos? Mas não é esse apoio uma manifestação de combate ao terrorismo, chame-se ele ETA ou AL QAEDA? O que terá contribuído mais para a súbita mudança no sentido de voto em poucas horas?
No fundo, a conclusão a tirar pelos autores do atentado é que valeu a pena. O medo e a incompreensão deu os seus frutos e, num repente, todos esqueceram os milhares de mortos em Nova Iorque.
Mortos que merecem, no mínimo, o mesmo respeito que as vítimas da ETA.
segunda-feira, março 08, 2004
Liberdade / Censura
Não fosse repetir-se o caso de, num gesto mais brusco, um seio surgir imprevistamente numa transmissão televisiva, a recente cerimónia da entrega dos Óscares foi transmitida pela cadeia de televisão americana ABC não em directo mas com um atraso de cinco segundos. O objectivo foi garantir que nenhuma imagem “imprópria” seria transmitida para casa de todos os que seguiam o espectáculo.
Em França, há alguns dias atrás, os organizadores dos prémios “Victoires de la Musique” decidiram fazer a transmissão televisiva com um desfasamento de dez minutos, invocando “razões técnicas”.
Num e noutro caso, evitam-se dessa forma eventuais comentários e declarações “políticas” em locais à partida “apolíticos”, mas que são aproveitados por “alguns” para fazer passar a sua mensagem contra um governo ou uma determinada política.
Mas a questão é outra ou pode ser outra. Liberdade de expressão é a liberdade que temos de falar sem qualquer receio de sermos calados, é a possibilidade que temos de dar a nossa opinião sem qualquer tipo de silenciamento. Obviamente, pressupõe-se a responsabilização daquilo que é dito por quem diz.
Parece-me desta forma que o conhecimento prévio do discurso e as suas aceitação e aprovação atempadas por parte, quer dos órgãos de comunicação social, quer do Estado, são inaceitáveis numa sociedade democrática. Podem até existir situações em que os riscos da liberdade aconselham alguma prudência à sociedade, mas um seio nu está longe de justificar a limitação de falar sem escolhos no caminho.
Em França, há alguns dias atrás, os organizadores dos prémios “Victoires de la Musique” decidiram fazer a transmissão televisiva com um desfasamento de dez minutos, invocando “razões técnicas”.
Num e noutro caso, evitam-se dessa forma eventuais comentários e declarações “políticas” em locais à partida “apolíticos”, mas que são aproveitados por “alguns” para fazer passar a sua mensagem contra um governo ou uma determinada política.
Mas a questão é outra ou pode ser outra. Liberdade de expressão é a liberdade que temos de falar sem qualquer receio de sermos calados, é a possibilidade que temos de dar a nossa opinião sem qualquer tipo de silenciamento. Obviamente, pressupõe-se a responsabilização daquilo que é dito por quem diz.
Parece-me desta forma que o conhecimento prévio do discurso e as suas aceitação e aprovação atempadas por parte, quer dos órgãos de comunicação social, quer do Estado, são inaceitáveis numa sociedade democrática. Podem até existir situações em que os riscos da liberdade aconselham alguma prudência à sociedade, mas um seio nu está longe de justificar a limitação de falar sem escolhos no caminho.
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
Greves à sexta-feira
Lembrei-me deste tema ao ler um artigo de Lucy Kellaway no "Diário Económico" de 14 de Janeiro, intitulado "O seu slôgane para a produtividade: não faça nada, ponto final". A autora anunciava que havia recebido "um folheto de uma consultora que dizia que a actividade da maioria das empresas girava em torno da desordem", acrescentando que "a desorganização deve-se, acima de tudo, ao excesso de informação e de tecnologia". O que, por sua vez, "implica numerosas reuniões, partilha ou transferência de responsabilidades e duplicação de esforços". Sem ser especialista, parece-me serem estes aspectos facilmente compreensíveis à luz dos princípios da Termodinâmica que regulam, em particular, a transferência e a degradação da energia e da informação. Dessa forma, uma medida da desordem é minimizada nos processos quase estáticos e todos os processos em que intervém o atrito são geradores de desordem.
Digam lá se em Portugal, desde há muito tempo, não são conhecidos os princípios da termodinâmica...
Fazer pouco ou fazer que se faz minimiza a desordem e contribui para uma maior eficiência dos serviços. O orçamento de uma instituição pública que atribui noventa por cento a gastos com o pessoal e os restantes dez por cento a outros gastos, desde o papel higiénico aos computadores é, afinal, coerente e entendível. Assim, a falta de papel desincentiva a utilização dos lavabos e o impedimento de revoluções na informática inviabiliza o acesso às auto-estradas da informação que, nos nossos serviços públicos, não passam de caminhos de cabras.
A lição a retirar é esta: "Não fazer nada para melhor fazer". Mas o que terá este texto a ver com o título? Pois bem, há quem defenda que as greves deveriam ser marcadas para as quintas-feiras, mas somente após o Governo dar garantia de haver tolerância de ponto no dia seguinte...
Digam lá se em Portugal, desde há muito tempo, não são conhecidos os princípios da termodinâmica...
Fazer pouco ou fazer que se faz minimiza a desordem e contribui para uma maior eficiência dos serviços. O orçamento de uma instituição pública que atribui noventa por cento a gastos com o pessoal e os restantes dez por cento a outros gastos, desde o papel higiénico aos computadores é, afinal, coerente e entendível. Assim, a falta de papel desincentiva a utilização dos lavabos e o impedimento de revoluções na informática inviabiliza o acesso às auto-estradas da informação que, nos nossos serviços públicos, não passam de caminhos de cabras.
A lição a retirar é esta: "Não fazer nada para melhor fazer". Mas o que terá este texto a ver com o título? Pois bem, há quem defenda que as greves deveriam ser marcadas para as quintas-feiras, mas somente após o Governo dar garantia de haver tolerância de ponto no dia seguinte...
terça-feira, fevereiro 03, 2004
Ambiente
Há uns anos atrás, esforçaram-se em convencer-nos a separar o lixo. Desde os bancos da escola, onde esperavam que os mais miúdos passassem palavra em casa aos mais velhos, pedia-se que os portugueses tivessem consciência que podiam ter uma melhor qualidade de vida. Tudo dependia do seu comportamento. Distribuiram-se contentores azuis, brancos, amarelos e verdes que receberiam jornais, vidros, plásticos, pilhas e o restante lixo diário. Em casa, os mais conscienciosos atravancavam a cozinha com vários sacos de plástico de cores distintas onde faziam a recolha. Passados estes anos, confirma-se aquilo de que se suspeitou desde o início: 90 por cento dos resíduos sólidos urbanos continuam a ser encaminhados para aterros ou para queima. Quer dizer, o que é separado por nós acaba por ser queimado e destruído junto. Melhor ambiente e melhor qualidade de vida? Alguém continua a fazer de nós parvos...
terça-feira, janeiro 27, 2004
Memória
Quando M. sorriu pela última vez, o pai não estava na sala. Regressou a tempo de ouvir o nome do filho ser gritado por milhares de gargantas. Nada a que não estivesse habituado. M.era um artista e, como tal, tocava fundo a sensibilidade dos que o aplaudiam. Quando entrou naquela campo encharcado, imediatamente deu nas vistas. O cabelo louro avistava-se do lugar mais afastado da bancada e pela elegância dos seus movimentos pressentia-se que algo estava para acontecer. E aconteceu. M. participou e quase concluiu o movimento que faria a multidão levantar-se e aplaudir. Tinha valido a pena. Sair de casa numa noite invernosa, percorrer centenas de quilómetros e esperar oitenta e nove minutos por aquele momento, tinha valido a pena. Antes do sorriso, M. olhou para as bancadas em seu redor. A emoção das pessoas e a sua felicidade tinham a ver consigo. Ele tinha ajudado a fazê-los felizes. Ensaiou outros movimentos, combinou com os companheiros, sujou os calções, molhou a camisola com o seu suor mas a multidão estava rendida. M. era um dos seus e cumpriu o que esperavam dele. Quando M. sorriu pela última vez até a bola, rendida pelo seu toque de artista, se afastou para longe...
segunda-feira, janeiro 19, 2004
Memória
Começam hoje a ser recolhidos os depoimentos das vítimas de pedofilia nos Açores para memória futura. Ao contrário do que sucedeu no continente o juíz de Ponta Delgada considerou urgente tal recolha. Por muitas voltas que o processo dê e por muitas ameaças que as vítimas sofram, algo vai ficar registado e, espera-se, em segurança. No continente, de comédia em comédia e de pressão em pressão, as verdadeiras vítimas dos abusos, as crianças, são quase abandonadas e ignoradas...
Timing
As televisões foram pródigas em imagens, um mês depois de ter sido formalmente acusado, começou o julgamento de Michael Jackson. Quer isto dizer que nos Estados Unidos da América um mês é suficiente para o inquérito, marcação e começo do julgamento.Estes hábitos não podem passar de uns países para outros?
segunda-feira, janeiro 12, 2004
Amor, Amor
"Quando o amor morrer
dentro de ti,
Caminha para o alto
onde haja espaço,
E com o silêncio
outrora pressentido
Molda em duas colunas
os teus braços.
Relembra a confusão
dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonhos de amor,
teu peito ferido
Espalhou generoso
aos quatro ventos.
Aos que passarem
dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes
de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas
lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma
o inventário
Do templo onde a vida
ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram."
Ruy Cinatti, in Poemas de Amor
dentro de ti,
Caminha para o alto
onde haja espaço,
E com o silêncio
outrora pressentido
Molda em duas colunas
os teus braços.
Relembra a confusão
dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonhos de amor,
teu peito ferido
Espalhou generoso
aos quatro ventos.
Aos que passarem
dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes
de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas
lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma
o inventário
Do templo onde a vida
ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram."
Ruy Cinatti, in Poemas de Amor
terça-feira, janeiro 06, 2004
Dois
No meio de todo este estado depressivo que grassa por aí, é justo evidenciar alguns oasis que manifestamente nos ajudam a sobreviver. Refiro-me ao lançamento do Dois. Deve dizer-se, por ser justo e merecido, que a administração de Almerindo Marques colocou de novo a RTP nos carris depois de um profundo e prolongado descarrilamento de gerências anteriores. Começou por limpar a casa, negociando a saída de trabalhadores excedentários, alguns em idade de reforma, reformulou alguns vencimentos escandalosos da era Rangel, colocou na Informação as pessoas capazes de praticar e dirigir um jornalismo sério, inteligente e nada partidário, abriu o conhecido segundo canal à sociedade civil. E se este último ponto parece chavão, recorde-se que estamos a falar de dez horas semanais, o que em televisão é algo extraordinário. Resultados? É cedo, mas por aquilo que se conhece do anúncio da grelha semanal, estão aí todos os ingredientes para o Dois se tornar um canal de referência.
quinta-feira, dezembro 18, 2003
(IN)JUSTIÇA
O caminho demasiado obscuro que este caso da pedofilia parece estar a seguir é mau para todos nós. Estas libertações decididas por instâncias superiores e os artifícios engenhosos que todos utilizam - Advogados, Ministério Público, Juíz -, se bem que cobertos certamente pela legalidade, dão uma péssima imagem ao caso. Especialmente porque a opinião pública começa nesta altura a duvidar se o processo irá até às últimas consequências. Ou se provavelmente não será apenas o famoso Bibi, como "elo mais fraco", o único acusado e a única "vítima" no processo. Esperemos novos episódios.
quarta-feira, dezembro 17, 2003
Poesia Argelina
Avant toute chose
"Pour qui écrivent les poètes?
Pour quelle beauté luisent les yeux du lecteur?
Pour quel prix?
L'inestimable lumière n'éclaire
Pas tout à fait les pages de ce livre,
Une main mendiante de lignes
Va les écrire avant toute chose,
Avant le destin.
Avant toute page, je remercie
La clarté qui a refusé l'or du sommeil,
je remercie l'insomnie
De l'autre main qui a veillé,
Je remercie tous les autres sans oublier
L'autre lecteur qui n'a pas existé.
Beauté et belles choses, désertez le vide
Jusqu'à ce que ce livre soit rempli de voiles...
Que toute chose soit nocturne d'avance!
je ne suis pas tout à fait dans la nuit,
Je suis...
El-Mahid Acherchour
"Pour qui écrivent les poètes?
Pour quelle beauté luisent les yeux du lecteur?
Pour quel prix?
L'inestimable lumière n'éclaire
Pas tout à fait les pages de ce livre,
Une main mendiante de lignes
Va les écrire avant toute chose,
Avant le destin.
Avant toute page, je remercie
La clarté qui a refusé l'or du sommeil,
je remercie l'insomnie
De l'autre main qui a veillé,
Je remercie tous les autres sans oublier
L'autre lecteur qui n'a pas existé.
Beauté et belles choses, désertez le vide
Jusqu'à ce que ce livre soit rempli de voiles...
Que toute chose soit nocturne d'avance!
je ne suis pas tout à fait dans la nuit,
Je suis...
El-Mahid Acherchour
terça-feira, dezembro 16, 2003
Saddam
A tão desejada prisão de Saddam é uma vitória de todos os que, sem fantasias nem fingimentos, preferem a liberdade e a democracia ao terrorismo. A verdade é que há opções que se vão fazendo e que são decisivas para o nosso futuro global.Uns preferem apoiar os assassinos, outros a sua prisão.Pode ser que desta vez descubram a tempo que a figura não é de plástico...
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