terça-feira, maio 03, 2005
As Nossas Ruas
Leio a notícia junto à estátua de António Augusto da Silva Martins que dá o nome à mais importante artéria do Rossio e lembro-me de Cesário Verda, agora que passam cento e cinquenta anos do seu nascimento. Fernando Pessoa, via Alberto Caeiro, dizia sobre Cesário: “Ele era um camponês que andava preso em liberdade pela cidade. Andava na cidade como quem anda no campo.” E lembro-me de Saramago que, desde 2001, dá o nome a uma biblioteca e a uma rua em Rivas, perto de Madrid. O nosso Nobel evocou, na altura, determinada rua da Azinhaga, freguesia ribatejana onde nasceu e onde jogou à bola em menino. E contou que mais tarde se mudou para Lisboa onde veio “morar na rua E”. Sem mais nem menos. Simplesmente E. Quando habitamos determinado espaço, não deveríamos merecer mais do que uma simples letra? Que nome daria Saramago à sua velha rua da bola de trapos, do pião, da apanhada, se a autarquia seguisse o exemplo de San Giorgio del Sannio?
Encontro com alguma regularidade toponímia curiosa. Em Évora existe a rua do Imaginário, em Viseu a do Amor de Perdição, em Vilamoura a das Estrelas, em Sesimbra a dos Naufrágios, em Leça a dos Dois Amigos em homenagem à amizade entre António Nobre e Alberto de Oliveira, no Porto a das Musas, chamada antes Viela dos Abraços. Ainda do ponto de vista literário, Eça tem a rua das Flores que dá nome à tragédia e Mário de Carvalho o Beco das Sardinheiras. Cesário, por exemplo, nasceu na rua da Padaria mas desconhece-se o local exacto, faltando também a placa alusiva ao acontecimento.
Os nossos dias stressantes e vazios afastam para longe, para muito longe, os simples passeios para lá das florestas de betão. Avistar os “ramalhetes rubros das papoulas” fica assim mais difícil.
sexta-feira, abril 29, 2005
Mordomias
Ele é muito provavelmente a pessoa que em Portugal piores títulos escolheu para os seus livros (“Picar de novo o porco que dorme” é bem exemplificativo) mas na entrevista explicou as razões que tornam uma carreira política no Parlamento aliciante. (Vamos lá então) Primeiro, ser deputado é uma ambição compreensível por se tratar de uma ocupação notória, de exígua responsabilidade e custo. Financeiramente, o Parlamento não deslumbra, mas é uma ocupação segura e confortável. (Não começamos nada mal, não senhor, mas aguardem o que está para vir) Depois, Almeida Santos acrescenta outras razões mais “terrenas” que contribuem para que nasça num português da província o desejo de estar na Assembleia. Ele próprio o diz, “para quem vive fora de Lisboa, vir três ou quatro vezes por semana à capital permite uma liberdade, nomeadamente conjugal, que é bastante sedutora”. (Repitam a leitura da citação, por favor)
Devemos esquecer tudo o que pensávamos que sabíamos sobre o Parlamento, a Democracia, a Representação popular, os interesses regionais. Afinal, os deputados de fora de Lisboa são eleitos com uma única função: libertarem-se dos cônjuges.
Tenho pena que a comunicação social portuguesa, tão pronta a encontrar escândalos em alguns governos e a branquear outros, não investigue este assunto, uma vez que o próprio Almeida Santos não denunciou os seus colegas. Eu gostava de saber nomes. Eu e os cônjuges.
Sinal dos Tempos
Infelizmente, é esta a sociedade em que vivemos. Perdeu-se a noção do que é assistir a um espectáculo partilhado colectivamente. O problema não está apenas na falta de educação e consideração de alguns grosseiros que, antes dos telemóveis, faziam barulho e falavam alto nos concertos. Há um mal-estar muito maior. A cultura dominante é a do barulho, da palavra vazia, da comunicação redundante. Até as campanhas publicitárias giram em torno do falar para dizer nada até ficar sem voz. Durante tempos, foi o barulhinho do papel do rebuçado. Depois, a tosse foi ganhando adeptos. Hoje, o telemóvel domina a acção, quer seja nas mãos de um adolescente, de um novo-rico cultural, da cinquentona impertinente, do fulano das novas tecnologias. Habituem-se!
terça-feira, abril 19, 2005
Mar Adentro

dá realmente que pensar. Então deve "ajudar-se a morrer"? Ou será apenas "uma libertação"?
Ramon Sampedro demorou vinte e oito anos e quatro meses a "libertar-se".
Fabulosa a interpretação de Javier Bardem.
quinta-feira, abril 14, 2005
Sabedorias...
Arranja a mesa: Decide exactamente aquilo que queres. A clareza é essencial. Antes de começar a trabalhar, escreve as tuas metas e objectivos num papel.
Planifica cada dia com antecipação: Pensa no papel. Cada minuto gasto a planificar pode poupar-te cinco a dez minutos durante a fase de execução.
Aplica a regra 80/20 a todas as situações: Vinte por cento das tuas actividades serão responsaveis por 80 por cento dos resultados. Concentra sempre os teus esforços naqueles vinte por cento de tarefas ou actividade.
Considera as consequências: As tarefas e prioridades mais importantes são aquelas que têm consequências mais sérias, positivas ou negativas, na tua vida e no teu trabalho. Concentra-te nelas acima de tudo.
Pratica continuamente o método ABCDE: Antes de começar a trabalhar numa lista de tarefas, reserva uns momentos para as organizar por ordem de valor e prioridade, de modo a que tenhas a certeza de que estaràs a trabalhar nas tuas actividades mais relevantes.
Concentra-te nas areas chave que produzem resultados: Identifica e define aqueles resultados que são absoluta e definitivamente necessarios para que consigas fazer bem todas as tuas tarefas e trabalha nelas ao longo do dia.
Obedece à Lei da Eficiência Obrigatoria: Nunca ha tempo para fazer tudo, mas ha sempre tempo para fazer as coisas importantes. Quais são essas coisas?
Prepara-te cuidadosamente antes de começar: A Preparação Previa Previne Performances Pobres.
Faz os trabalhos de casa: Quanto mais entendido e competente te tornares em relação às tuas tarefas-chave, mais depressa as iras começar e mais cedo as concluiras.
Rendibiliza os teus talentos especiais: Determina com exactidão que coisas és muito bom a fazer, ou poderas vir a ser, e entrega-te de alma e coração a executar muito, muito bem essas tarefas especificas.
Identifica os principais constrangimentos: Determina os pontos de estrangulamento, internos ou externos, que definem a velocidade com que consegues alcançar os teus objectivos mais importantes, e concentra-te em alivià-los.
Um barril de petroleo de cada vez: “Uma caminhada de mil milhas começa com um pequeno passo.” Se deres um passo de cada vez, conseguiras realizar os trabalhos mais dificeis e complicados.
Exerce pressão sobre ti proprio: Imagina que tens de sair da cidade durante um mês e trabalha como se tivesses de concluir todas as tarefas maiores antes de partir.
Maximiza os teus recursos pessoais: Identifica os periodos diarios de maior energia mental e fisica e programa as tarefas mais importantes e exigentes para serem executadas nessas alturas. Descansa bastante para que possas trabalhar no teu maximo.
Motiva-te para a acção: Sê o teu proprio factor de incentivo. Procura o lado mais positivo da cada situação. Concentra-te mais na solução que no problema. E sempre optimista e construtivo. Quando alguém te perguntar: “-Como estàs?” Responde sempre “ – Estou optimo!” Oitenta por cento das pessoas não querem realmente saber e vinte por cento ficam contentes se estiveres mal.
Pratica o adiamento criativo: Uma vez que não se pode fazer tudo, tens de aprender a por de lado propositadamente aquelas tarefas de baixo valor a fim de dispor de tempo suficiente para as poucas coisas que verdadeiramente contam.
Faz primeiro a tarefa mais dificil: Começa cada dia com a tarefa mais dificil, aquela que pode contribuir mais para ti e para o teu trabalho, e sê determinado em não a largar até que seja concluida.
Divide a tarefa: Divide as tarefas grandes e complexas em pequenas parcelas e depois começa por fazer apenas uma reduzida parte da tarefa.
Cria grandes blocos de tempo: Organiza os dias em função de grandes blocos de tempo, nos quais te possas concentrar nas tarefas mais importantes durante extensos periodos.
Desenvolve um sentido de urgência: Adquire o habito de atacar logo as tuas tarefas-chave. Torna-te conhecido como uma pessoa que faz as coisas bem e depressa.
Executa uma unica tarefa de cada vez: Estabelece prioridades claras, começa de imediato pela tarefa mais importante e depois trabalha sem paragens até que esteja 100 por cento terminada. Esta constitui a verdadeira chave para elevados desempenhos e para a maxima produtividade pessoal.
Toma a resolução de praticar estes principios todos os dias até que se tornem a tua segunda natureza. Interiorizando estes habitos de gestao pessoal como caracteristicas permanentes da tua personalidade, o futuro não tera limites.
terça-feira, abril 12, 2005
Vinicius de Moraes
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
sexta-feira, abril 08, 2005
Hora da Poesia
Dobrei teus pulsos a dura aranha
do teu corpo
a tua árvore
faca que rasgou a barreira do ventre
a tua face abrindo-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti
exílio
pátria sobre o chão
e fuga
furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio
António Ramos Rosa
terça-feira, abril 05, 2005
Um Herói
Sucedeu há quase um mês no Sudão, a vinte cinco quilómetros do centro de Cartum, a capital sudanesa, e a verdade é que o morticínio só não aconteceu devido ao gesto do piloto. Quem nos contou esta história? Ah, isso sabemos. Abou Bakr Jaafar e Seif Mazrouq Saad Umar são directores da aviação civil do Sudão e da Air West, a companhia aérea a que pertencia o avião cargueiro. Ou seja, as agências noticiosas referiram os seus nomes como fontes mas não foram capazes de indicar o nome do piloto transformado em herói. Ironia do destino? Talvez, ou então tal impossibilidade teve a ver com a rapidez da sua morte mas não tinha sido também rápida a decisão de poupar vidas, mesmo sabendo que não salvava a sua?
Num mundo de desnorte e de individualismo, que lição tirar desta atitude anónima? Muito simplesmente, podemos fazer sempre algo para salvar vidas, reduzir acidentes, minimizar danos. Tratar-se-á de um caso único? Longe disso, houve outros heróis em todos os continentes e em várias circunstâncias, mas o facto desta história se ter passado num país noticiado pelos piores motivos – nomeadamente, constantes violações dos direitos humanos -, torna tudo ainda mais insólito.
No país existem 1,8 milhões de deslocados, vítimas do conflito armado que ali decorre há décadas. Dezenas de milhares de mortos que, mesmo assim, estão longe do milhão de pessoas ameaçadas pela fome. Todos estes números não tocaram fundo na comunidade internacional. Esta continua impassivelmente envergonhada e à última hora evitou mesmo a “simples” inscrição de genocídio no último relatório assinado pelos inspectores das Nações Unidas. Nestes momentos há sempre alguém que fica feliz e aliviado: os governos locais. Desta vez, foi o governo sudanês. “Temos uma cópia desse relatório e não se fala na existência de genocídio”, declarou o ministro sudanês dos Negócios Estrangeiros aos jornalistas no final de Janeiro. Pode existir violência, fome, um elevado número de violações, imensas pilhagens, um grande número de deslocados, mas o importante é não levantar muitas ondas e, para descanso de todos, o maior país do continente africano tem apenas – segundo os relatórios oficiais – um “potencial de genocídio”.
Voltemos ao nosso herói, muitas linhas depois da última referência. Que resposta deu o nosso anónimo ao mundo individualista e de desnorte? Com que acção respondeu aos relatórios oficiais e às consciências pesadas? Que pedra atirou às vontades guerreiras das forças guerreiras do pó sudanês? Um simples homem que não deixou o nome para a posteridade, condenado à morte pelo destino, desviava o seu avião para salvar um elevado número de compatriotas que jamais conhecerá. Em terra, estes mesmos compatriotas ignorarão o gesto e lembrarão apenas “o destino”, essa figura imensa. Jamais lembrarão a humanidade do acto e a lição de vida que aconteceu no seu país. Um país repleto de vítimas e algozes.
terça-feira, março 22, 2005
"Sentido Ético"??
Para este senhor, apagado que está o passado, só o governo que agora termina funções terá tido os seus “boys”. Antes dele, terão existido “rapazes”, “garçons” ou “ragazzi” mas “boys” é que não. Muito bem, passemos adiante.
O Dr. Lacão é conhecido por estar sempre com a liderança do seu partido e, talvez por isso, não necessita de colocar nunca o lugar à disposição quando as coisas não correm bem. Vários exemplos: como tenho a mania dos papéis fui à procura e verifiquei que em 1995, o programa do Partido Socialista apresentava a seguinte promessa, perdão, proposta, quero dizer, compromisso, corrijo, objectivo, para o distrito de Santarém: regularização e ordenamento do Tejo. Pois é, prometeu mas não fez. Algum dos deputados do PS eleitos pelo distrito, incluindo o Dr. Lacão, tomou a atitude, “por simples dever ético”, de colocar o seu lugar à disposição ? Outras promessas ou propostas ou compromissos ou objectivos de 95: projectos e concursos para o IC3, projecto e execução do IC11, de Vendas Novas a Vila Franca de Xira, construção da variante EN3, do Cartaxo a Santarém. Prometeram e não fizeram. Ninguém colocou o lugar à disposição.
Na noite eleitoral, o vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura, António Santos Bernardino, festejou de cachecol aos ombros, na sede do PS / Leiria, o resultado dos socialistas nas últimas eleições legislativas ( caros leitores socialistas, tenho a fotografia se duvidarem ). Perante a gravidade do facto ( ou só seria grave se o mesmo tivesse sucedido numa qualquer sede do PSD ? ), o Dr. Lacão aconselhará este senhor, “por simples dever ético”, a colocar o seu lugar à disposição ?
Imaginemos agora um “supônhamos”, como diria o José Pedro Gomes. Daqui a algum tempo, quando o professor Freitas do Amaral esquecer a rábula “toma lá o meu apoio, dá-me cá um ministério” e encerrar a Festa do Avante na Atalaia, será que o Dr. Lacão lhe irá pedir que tome a atitude, “por simples dever ético”, de colocar o seu lugar à disposição ?
A famosa argúcia popular encontrou para este contexto o conhecido “se tens telhados de vidro, não atires pedras”. Há políticos, há promessas, há obras, tem de haver responsabilidades.
Um último pormenor. O simples upgrade ou a actualização do sistema pode não resolver o problema. Por vezes, é necessário um bom anti-vírus. Habitue-se…
sexta-feira, março 18, 2005
Chuva forte
Águas de Março

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É um resto de mato na luz da manhã
Tom Jobim
E esta??

O senhor da esquerda, com cachecol do PS ao pescoço chama-se António Cardoso dos Santos Bernardino. É "simplesmente" vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura e não resistiu a celebrar a vitória do seu partido na sede do PS em Leiria. Este senhor é o responsável máximo pelo orgão disciplinador dos juízes portugueses, o orgão que pune os magistrados judiciais quando estes violam o dever de reserva. Este senhor será diferente dos outros?
E se o Dr. Souto Moura fosse avistado numa sede do PSD?
Pois é...
Arte? Qual arte??????
Segunda situação. Em Junho de 2004, um zeloso funcionário de limpeza da galeria Tate Britain em Londres deitou fora – com razão – aquilo que lhe pareceu ser um saco de plástico com papéis e pedaços de cartão, que se encontrava junto a uma mesa. Tratava-se de parte de uma instalação do alemão Gustav Metzeger. (Infelizmente) O saco seria entretanto recuperado. Arte?
Terceira situação. Ainda em Londres, em 2001, o excesso de zelo destruiu uma “obra” do britânico Damien Hirst: latas de cerveja vazias, chávenas de café, maços de tabaco e cinzeiros atulhados de beatas, reunidas com o objectivo de representar o caos do estúdio do artista, foram parar – e bem – ao lixo. Arte?
Quarta situação. Na Alemanha, anos 80, a banheira imunda que fazia parte de uma instalação de Joseph Beuys foi esfregada – e bem – até ficar limpa. Arte?
Quinta situação. Há poucos dias, em Frankfurt, uma peça feita de vulgar plástico amarelo usado na construção civil, dobrado e cortado pelo artista Michael Beutler foi – e bem – destruída e incinerada por três alemães que trabalham na recolha do lixo. O autor explicou à BBC.News que tal obra “tinha qualquer coisa de parque infantil público, podia ver-se nela uma espécie de cobra ou assim”. O objectivo seria “criar uma coisa de tal forma real que não parecesse uma obra de arte”. Arte?
Nota: Este texto é dedicado aos "almeidas" portugueses. Força, vocês são a nossa esperança…
quinta-feira, março 17, 2005
Prosa
PROSE
Tu me manques mais maintenant
Pas plus que ceux que je ne connais pas
Je les invente criblant de tes faces
La terre qui fut riche en mondes
(Quand chaque roi guidait une île
A l’estime de ses biens (cendre d’
Oiseaux, manganèse et salamandre)
Et que des naufragés fédéraient les bords)
Maintenant tu me manques mais
Comme ceux que je ne connais pas
Dont j’imagine avec ton visage l’impatience
J’ai jeté tes dents aux rêveries
Je t’ai traité par-dessus l’épaule
(Il y a des vestales qui reconduisent au Pacifique
Son eau fume C’est après le départ des fidèles
L’océan bave comme un mongol aux oreillers du lit
Charogne en boule et poils au caniveau de sel
Un éléphant blasphème Poséidon)
Tu ne me manques pas plus que ceux
Que je ne connais pas maintenant
Orphique tu l’es devenu J’ai jeté
Ton absence démembrée en plusieurs vals
Tu m’as changé en hôte Je sais
Ou j’invente
terça-feira, março 15, 2005
Vitorino Nemésio
Semântica Electrónica
Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
Vitorino Nemésio
sexta-feira, março 11, 2005
Nau Catrineta
- Lá Vem a Nau Catrineta ( 39 )

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p'ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr'à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p'lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P'ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?...D. Lacão
É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar
Era tempo de ocupar
camarotes e beliches
eram novos, a estrear
bem confortáveis, bem fixes
É claro que os tenentes
ocupavam camarotes
o resto das outras gentes
os beliches, mais fracotes
O grosso da marujada
toda ao monte, pois então?
pelo convés espalhada
com os costados no chão
Há séculos que assim era
sempre assim fôra vivido
a vida dura e austera
tinham há muito assumido
"...Falta muito para zarpar?
ó piloto do inferno?
eu quero é fazer-me ao mar
que em terra não me governo
o Banco levou-me a casa
o fisco o meu carrinho
a mulher bateu a asa
deixou-me a falar sozinho"...
"...Foi bem feito,meu sacrista!
quem te mandou ser otário?
querias ser galo de crista
foste frango de aviário
elegeste um trapalhão
D. Burroso, essa vedeta
para ser ele o Capitão
da bela Nau Catrineta...
...Em vez da prata e do oiro
que dizia ir trazer
afundou foi o tesoiro
e deu à sola a correr
Depois foi D. Santanás
com ele foi um fartote
já percebes porque estás
não de tanga, mas pelote?"...
Calou, seus fala-barato
vós sois piores que peixeiras
e toca a dar ao sapato
acabar com as brincadeiras
uma encomenda selada
vai chegar via postal
vem do Caldas enviada
p´ra D. Diogo Amaral
Assim que ela cá chegar
quero ser logo avisado
aquele que a entregar
vai levar outro recado
D. José me confiou
esta tarefa importante
escusado dizer que estou
bem por demais radiante
Irei dizer ao carteiro
que diga de uma assentada
ao marmelo que primeiro
no Caldas vir à entrada:
De D. José venho a rogo
informar-vos em geral
que o quadro de D. Diogo
de Freitas do Amaral
foi com prazer recebido
logo,logo colocado
no local que lhe é devido
prontamente preparado
D. Paulinho a sua acção
foi a de um puto de escola
ou você é parvalhão
ou não bate bem da bola
mas pode ficar ciente
depois desta brincadeira
pode haver na sua gente
quem espete o seu na lixeira
Autor: Zé do Telhado - in: www.tadechuva.weblog.com.pt - Blogue: Tadechuva II
Madrid, um ano depois

A paz sem vencedor e sem vencidos
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, março 10, 2005
Rosalia de Castro
¡Cal as nubes no espazo sin límites
errantes voltexan!
Unhas son brancas,
outras son negras;
unhas, pombas sin fel me parecen,
despiden outras
luz de centela...
Sopran ventos contrarios na altura
i á desbandada,
van levándoas sin orden nin tino,
nin en sei pra onde,
nin sei por que causa.
Van levándoas, cal levan os anos
os nosos ensoños
i a nosa esperanza.
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
Dia dos Namorados
Tríptico
«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.

