quinta-feira, maio 05, 2005

Parabéns



pelos dois anos do ABRUPTO, o blog de José Pacheco Pereira onde todos procuramos inspiração

terça-feira, maio 03, 2005

Alguém se recorda

dos mais belos olhos?
afghangirl.jpg

Velocidades

pode o Presidente da República condená-las quando se desloca para todo o lado a mais de 200 km/hora?

As Nossas Ruas

San Giorgio del Sannio é o nome de uma pequena cidade italiana perto de Nápoles. Num esforço realmente imaginativo para ultrapassar a grave situação financeira, o seu Presidente da Câmara acaba de colocar à venda o nome de algumas dezenas de ruas. Os preços variam entre dez mil euros na periferia e os quinze mil euros no centro da cidade. O objectivo é a renovação do cinema municipal e a construção de um lar de idosos, numa cidade com dez mil habitantes. Não se pense que se pode escolher qualquer designação. Contra a vontade daqueles que já pensavam em Avenida Cesare Maldini ou Praça Ferrari, o município só aceita o nome de antigos habitantes, entretanto falecidos. Desta forma, Giancarlo Cappozzi pôde atribuir uma rua à memória de seu pai, que foi médico em San Giorgio del Sannio.
Leio a notícia junto à estátua de António Augusto da Silva Martins que dá o nome à mais importante artéria do Rossio e lembro-me de Cesário Verda, agora que passam cento e cinquenta anos do seu nascimento. Fernando Pessoa, via Alberto Caeiro, dizia sobre Cesário: “Ele era um camponês que andava preso em liberdade pela cidade. Andava na cidade como quem anda no campo.” E lembro-me de Saramago que, desde 2001, dá o nome a uma biblioteca e a uma rua em Rivas, perto de Madrid. O nosso Nobel evocou, na altura, determinada rua da Azinhaga, freguesia ribatejana onde nasceu e onde jogou à bola em menino. E contou que mais tarde se mudou para Lisboa onde veio “morar na rua E”. Sem mais nem menos. Simplesmente E. Quando habitamos determinado espaço, não deveríamos merecer mais do que uma simples letra? Que nome daria Saramago à sua velha rua da bola de trapos, do pião, da apanhada, se a autarquia seguisse o exemplo de San Giorgio del Sannio?
Encontro com alguma regularidade toponímia curiosa. Em Évora existe a rua do Imaginário, em Viseu a do Amor de Perdição, em Vilamoura a das Estrelas, em Sesimbra a dos Naufrágios, em Leça a dos Dois Amigos em homenagem à amizade entre António Nobre e Alberto de Oliveira, no Porto a das Musas, chamada antes Viela dos Abraços. Ainda do ponto de vista literário, Eça tem a rua das Flores que dá nome à tragédia e Mário de Carvalho o Beco das Sardinheiras. Cesário, por exemplo, nasceu na rua da Padaria mas desconhece-se o local exacto, faltando também a placa alusiva ao acontecimento.
Os nossos dias stressantes e vazios afastam para longe, para muito longe, os simples passeios para lá das florestas de betão. Avistar os “ramalhetes rubros das papoulas” fica assim mais difícil.

sexta-feira, abril 29, 2005

Mordomias

Antes das eleições, passou despercebida uma entrevista que Almeida Santos, um dos “senadores” da Pátria, antigo deputado, antigo ministro e antigo Presidente da Assembleia da República, deu à Antena 1.
Ele é muito provavelmente a pessoa que em Portugal piores títulos escolheu para os seus livros (“Picar de novo o porco que dorme” é bem exemplificativo) mas na entrevista explicou as razões que tornam uma carreira política no Parlamento aliciante. (Vamos lá então) Primeiro, ser deputado é uma ambição compreensível por se tratar de uma ocupação notória, de exígua responsabilidade e custo. Financeiramente, o Parlamento não deslumbra, mas é uma ocupação segura e confortável. (Não começamos nada mal, não senhor, mas aguardem o que está para vir) Depois, Almeida Santos acrescenta outras razões mais “terrenas” que contribuem para que nasça num português da província o desejo de estar na Assembleia. Ele próprio o diz, “para quem vive fora de Lisboa, vir três ou quatro vezes por semana à capital permite uma liberdade, nomeadamente conjugal, que é bastante sedutora”. (Repitam a leitura da citação, por favor)
Devemos esquecer tudo o que pensávamos que sabíamos sobre o Parlamento, a Democracia, a Representação popular, os interesses regionais. Afinal, os deputados de fora de Lisboa são eleitos com uma única função: libertarem-se dos cônjuges.
Tenho pena que a comunicação social portuguesa, tão pronta a encontrar escândalos em alguns governos e a branquear outros, não investigue este assunto, uma vez que o próprio Almeida Santos não denunciou os seus colegas. Eu gostava de saber nomes. Eu e os cônjuges.

Sinal dos Tempos

Quinta-feira, 10 de Março de 2005, Teatro São Luiz em Lisboa. Um telemóvel toca no início do recital do pianista português Artur Pizarro e é atendido em voz alta. O músico, pacientemente, pára a execução da peça e retoma-a de imediato. Poucos minutos depois, toca outro telefone mas o músico não pára. Depois do intervalo, soa longamente outro telemóvel. O seu proprietário não atende nem o desliga. O músico pára de tocar e diz ao infeliz: “Atenda, que eu paro. Mas saia”. Pega nas partituras, levanta-se e vai-se embora. Burburinho na sala. Alguém vem anunciar que o pianista não regressará. O dono do telemóvel dirige-se á bilheteira para exigir o dinheiro de volta, porque o recital foi interrompido.
Infelizmente, é esta a sociedade em que vivemos. Perdeu-se a noção do que é assistir a um espectáculo partilhado colectivamente. O problema não está apenas na falta de educação e consideração de alguns grosseiros que, antes dos telemóveis, faziam barulho e falavam alto nos concertos. Há um mal-estar muito maior. A cultura dominante é a do barulho, da palavra vazia, da comunicação redundante. Até as campanhas publicitárias giram em torno do falar para dizer nada até ficar sem voz. Durante tempos, foi o barulhinho do papel do rebuçado. Depois, a tosse foi ganhando adeptos. Hoje, o telemóvel domina a acção, quer seja nas mãos de um adolescente, de um novo-rico cultural, da cinquentona impertinente, do fulano das novas tecnologias. Habituem-se!

terça-feira, abril 19, 2005

Mar Adentro



dá realmente que pensar. Então deve "ajudar-se a morrer"? Ou será apenas "uma libertação"?
Ramon Sampedro demorou vinte e oito anos e quatro meses a "libertar-se".
Fabulosa a interpretação de Javier Bardem.

quinta-feira, abril 14, 2005

Sabedorias...

A maxima de Richard Woolcott, fundador da Volcom é: RELENTLESS REPETITION. Repetir, repetir, repetir.

Arranja a mesa: Decide exactamente aquilo que queres. A clareza é essencial. Antes de começar a trabalhar, escreve as tuas metas e objectivos num papel.
Planifica cada dia com antecipação: Pensa no papel. Cada minuto gasto a planificar pode poupar-te cinco a dez minutos durante a fase de execução.
Aplica a regra 80/20 a todas as situações: Vinte por cento das tuas actividades serão responsaveis por 80 por cento dos resultados. Concentra sempre os teus esforços naqueles vinte por cento de tarefas ou actividade.
Considera as consequências: As tarefas e prioridades mais importantes são aquelas que têm consequências mais sérias, positivas ou negativas, na tua vida e no teu trabalho. Concentra-te nelas acima de tudo.
Pratica continuamente o método ABCDE: Antes de começar a trabalhar numa lista de tarefas, reserva uns momentos para as organizar por ordem de valor e prioridade, de modo a que tenhas a certeza de que estaràs a trabalhar nas tuas actividades mais relevantes.
Concentra-te nas areas chave que produzem resultados: Identifica e define aqueles resultados que são absoluta e definitivamente necessarios para que consigas fazer bem todas as tuas tarefas e trabalha nelas ao longo do dia.
Obedece à Lei da Eficiência Obrigatoria: Nunca ha tempo para fazer tudo, mas ha sempre tempo para fazer as coisas importantes. Quais são essas coisas?
Prepara-te cuidadosamente antes de começar: A Preparação Previa Previne Performances Pobres.
Faz os trabalhos de casa: Quanto mais entendido e competente te tornares em relação às tuas tarefas-chave, mais depressa as iras começar e mais cedo as concluiras.
Rendibiliza os teus talentos especiais: Determina com exactidão que coisas és muito bom a fazer, ou poderas vir a ser, e entrega-te de alma e coração a executar muito, muito bem essas tarefas especificas.
Identifica os principais constrangimentos: Determina os pontos de estrangulamento, internos ou externos, que definem a velocidade com que consegues alcançar os teus objectivos mais importantes, e concentra-te em alivià-los.
Um barril de petroleo de cada vez: “Uma caminhada de mil milhas começa com um pequeno passo.” Se deres um passo de cada vez, conseguiras realizar os trabalhos mais dificeis e complicados.
Exerce pressão sobre ti proprio: Imagina que tens de sair da cidade durante um mês e trabalha como se tivesses de concluir todas as tarefas maiores antes de partir.
Maximiza os teus recursos pessoais: Identifica os periodos diarios de maior energia mental e fisica e programa as tarefas mais importantes e exigentes para serem executadas nessas alturas. Descansa bastante para que possas trabalhar no teu maximo.
Motiva-te para a acção: Sê o teu proprio factor de incentivo. Procura o lado mais positivo da cada situação. Concentra-te mais na solução que no problema. E sempre optimista e construtivo. Quando alguém te perguntar: “-Como estàs?” Responde sempre “ – Estou optimo!” Oitenta por cento das pessoas não querem realmente saber e vinte por cento ficam contentes se estiveres mal.
Pratica o adiamento criativo: Uma vez que não se pode fazer tudo, tens de aprender a por de lado propositadamente aquelas tarefas de baixo valor a fim de dispor de tempo suficiente para as poucas coisas que verdadeiramente contam.
Faz primeiro a tarefa mais dificil: Começa cada dia com a tarefa mais dificil, aquela que pode contribuir mais para ti e para o teu trabalho, e sê determinado em não a largar até que seja concluida.
Divide a tarefa: Divide as tarefas grandes e complexas em pequenas parcelas e depois começa por fazer apenas uma reduzida parte da tarefa.
Cria grandes blocos de tempo: Organiza os dias em função de grandes blocos de tempo, nos quais te possas concentrar nas tarefas mais importantes durante extensos periodos.
Desenvolve um sentido de urgência: Adquire o habito de atacar logo as tuas tarefas-chave. Torna-te conhecido como uma pessoa que faz as coisas bem e depressa.
Executa uma unica tarefa de cada vez: Estabelece prioridades claras, começa de imediato pela tarefa mais importante e depois trabalha sem paragens até que esteja 100 por cento terminada. Esta constitui a verdadeira chave para elevados desempenhos e para a maxima produtividade pessoal.



Toma a resolução de praticar estes principios todos os dias até que se tornem a tua segunda natureza. Interiorizando estes habitos de gestao pessoal como caracteristicas permanentes da tua personalidade, o futuro não tera limites.

terça-feira, abril 12, 2005

Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

sexta-feira, abril 08, 2005

Hora da Poesia

Árvore Aberta

Dobrei teus pulsos a dura aranha
do teu corpo
a tua árvore
faca que rasgou a barreira do ventre
a tua face abrindo-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti

exílio
pátria sobre o chão
e fuga

furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio

António Ramos Rosa

terça-feira, abril 05, 2005

Um Herói

A história tem já alguns dias, a mensagem é bem actual. A verdade é que nem conhecemos o seu nome mas talvez isso não seja o mais importante. No Sudão, o piloto de um avião de carga condenado a cair tomou aquela que foi a sua última decisão: afastou-o da zona residencial que podia transformar-se em alvo e levou-o para o deserto onde, finalmente, se despenhou. No desastre, morreram sete pessoas, incluindo ele próprio.
Sucedeu há quase um mês no Sudão, a vinte cinco quilómetros do centro de Cartum, a capital sudanesa, e a verdade é que o morticínio só não aconteceu devido ao gesto do piloto. Quem nos contou esta história? Ah, isso sabemos. Abou Bakr Jaafar e Seif Mazrouq Saad Umar são directores da aviação civil do Sudão e da Air West, a companhia aérea a que pertencia o avião cargueiro. Ou seja, as agências noticiosas referiram os seus nomes como fontes mas não foram capazes de indicar o nome do piloto transformado em herói. Ironia do destino? Talvez, ou então tal impossibilidade teve a ver com a rapidez da sua morte mas não tinha sido também rápida a decisão de poupar vidas, mesmo sabendo que não salvava a sua?
Num mundo de desnorte e de individualismo, que lição tirar desta atitude anónima? Muito simplesmente, podemos fazer sempre algo para salvar vidas, reduzir acidentes, minimizar danos. Tratar-se-á de um caso único? Longe disso, houve outros heróis em todos os continentes e em várias circunstâncias, mas o facto desta história se ter passado num país noticiado pelos piores motivos – nomeadamente, constantes violações dos direitos humanos -, torna tudo ainda mais insólito.
No país existem 1,8 milhões de deslocados, vítimas do conflito armado que ali decorre há décadas. Dezenas de milhares de mortos que, mesmo assim, estão longe do milhão de pessoas ameaçadas pela fome. Todos estes números não tocaram fundo na comunidade internacional. Esta continua impassivelmente envergonhada e à última hora evitou mesmo a “simples” inscrição de genocídio no último relatório assinado pelos inspectores das Nações Unidas. Nestes momentos há sempre alguém que fica feliz e aliviado: os governos locais. Desta vez, foi o governo sudanês. “Temos uma cópia desse relatório e não se fala na existência de genocídio”, declarou o ministro sudanês dos Negócios Estrangeiros aos jornalistas no final de Janeiro. Pode existir violência, fome, um elevado número de violações, imensas pilhagens, um grande número de deslocados, mas o importante é não levantar muitas ondas e, para descanso de todos, o maior país do continente africano tem apenas – segundo os relatórios oficiais – um “potencial de genocídio”.
Voltemos ao nosso herói, muitas linhas depois da última referência. Que resposta deu o nosso anónimo ao mundo individualista e de desnorte? Com que acção respondeu aos relatórios oficiais e às consciências pesadas? Que pedra atirou às vontades guerreiras das forças guerreiras do pó sudanês? Um simples homem que não deixou o nome para a posteridade, condenado à morte pelo destino, desviava o seu avião para salvar um elevado número de compatriotas que jamais conhecerá. Em terra, estes mesmos compatriotas ignorarão o gesto e lembrarão apenas “o destino”, essa figura imensa. Jamais lembrarão a humanidade do acto e a lição de vida que aconteceu no seu país. Um país repleto de vítimas e algozes.

terça-feira, março 22, 2005

"Sentido Ético"??

Durante uns tempos ouvi falar em “choque tecnológico” e não percebi. Culpa minha, claro. Contudo, bastou uma declaração do Dr. Jorge Lacão para tornar tudo claro. Este senhor fez um upgrade. Passo a explicar: tal como os computadores, o Dr. Lacão procedeu a uma actualização no seu sistema e apagou todos os dados que continha até então. Só assim se explicam as suas declarações, mal foram conhecidos os resultados eleitorais, aconselhando as pessoas nomeadas para lugares públicos por razões estritamente partidárias a tomar a atitude, por simples dever ético, de colocarem os seus lugares à disposição logo que o novo governo tome posse.
Para este senhor, apagado que está o passado, só o governo que agora termina funções terá tido os seus “boys”. Antes dele, terão existido “rapazes”, “garçons” ou “ragazzi” mas “boys” é que não. Muito bem, passemos adiante.
O Dr. Lacão é conhecido por estar sempre com a liderança do seu partido e, talvez por isso, não necessita de colocar nunca o lugar à disposição quando as coisas não correm bem. Vários exemplos: como tenho a mania dos papéis fui à procura e verifiquei que em 1995, o programa do Partido Socialista apresentava a seguinte promessa, perdão, proposta, quero dizer, compromisso, corrijo, objectivo, para o distrito de Santarém: regularização e ordenamento do Tejo. Pois é, prometeu mas não fez. Algum dos deputados do PS eleitos pelo distrito, incluindo o Dr. Lacão, tomou a atitude, “por simples dever ético”, de colocar o seu lugar à disposição ? Outras promessas ou propostas ou compromissos ou objectivos de 95: projectos e concursos para o IC3, projecto e execução do IC11, de Vendas Novas a Vila Franca de Xira, construção da variante EN3, do Cartaxo a Santarém. Prometeram e não fizeram. Ninguém colocou o lugar à disposição.
Na noite eleitoral, o vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura, António Santos Bernardino, festejou de cachecol aos ombros, na sede do PS / Leiria, o resultado dos socialistas nas últimas eleições legislativas ( caros leitores socialistas, tenho a fotografia se duvidarem ). Perante a gravidade do facto ( ou só seria grave se o mesmo tivesse sucedido numa qualquer sede do PSD ? ), o Dr. Lacão aconselhará este senhor, “por simples dever ético”, a colocar o seu lugar à disposição ?
Imaginemos agora um “supônhamos”, como diria o José Pedro Gomes. Daqui a algum tempo, quando o professor Freitas do Amaral esquecer a rábula “toma lá o meu apoio, dá-me cá um ministério” e encerrar a Festa do Avante na Atalaia, será que o Dr. Lacão lhe irá pedir que tome a atitude, “por simples dever ético”, de colocar o seu lugar à disposição ?
A famosa argúcia popular encontrou para este contexto o conhecido “se tens telhados de vidro, não atires pedras”. Há políticos, há promessas, há obras, tem de haver responsabilidades.
Um último pormenor. O simples upgrade ou a actualização do sistema pode não resolver o problema. Por vezes, é necessário um bom anti-vírus. Habitue-se…

sexta-feira, março 18, 2005

Chuva forte

é a que se espera para as próximas horas. São as

Águas de Março



É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É um resto de mato na luz da manhã

Tom Jobim


E esta??



O senhor da esquerda, com cachecol do PS ao pescoço chama-se António Cardoso dos Santos Bernardino. É "simplesmente" vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura e não resistiu a celebrar a vitória do seu partido na sede do PS em Leiria. Este senhor é o responsável máximo pelo orgão disciplinador dos juízes portugueses, o orgão que pune os magistrados judiciais quando estes violam o dever de reserva. Este senhor será diferente dos outros?
E se o Dr. Souto Moura fosse avistado numa sede do PSD?
Pois é...

Arte? Qual arte??????

Primeira situação. Em Dezembro último, desapareceram do Centro de Arte e Espectáculos da Figueira da Foz os 17 pedaços de um lavatório de cerâmica a que Jimmie Durham chamou As Frases. Tais pedaços foram partidos em 1995, durante uma performance na galeria Módulo do artista norte-americano de origem cherokee e a peça, no valor de milhares de euros, pertencia à colecção do Instituto de Artes. O seu destino foi o lixo porque a empregada da limpeza achou – com razão – que se tratava de lixo de alguma obra a decorrer no centro. Arte?
Segunda situação. Em Junho de 2004, um zeloso funcionário de limpeza da galeria Tate Britain em Londres deitou fora – com razão – aquilo que lhe pareceu ser um saco de plástico com papéis e pedaços de cartão, que se encontrava junto a uma mesa. Tratava-se de parte de uma instalação do alemão Gustav Metzeger. (Infelizmente) O saco seria entretanto recuperado. Arte?
Terceira situação. Ainda em Londres, em 2001, o excesso de zelo destruiu uma “obra” do britânico Damien Hirst: latas de cerveja vazias, chávenas de café, maços de tabaco e cinzeiros atulhados de beatas, reunidas com o objectivo de representar o caos do estúdio do artista, foram parar – e bem – ao lixo. Arte?
Quarta situação. Na Alemanha, anos 80, a banheira imunda que fazia parte de uma instalação de Joseph Beuys foi esfregada – e bem – até ficar limpa. Arte?
Quinta situação. Há poucos dias, em Frankfurt, uma peça feita de vulgar plástico amarelo usado na construção civil, dobrado e cortado pelo artista Michael Beutler foi – e bem – destruída e incinerada por três alemães que trabalham na recolha do lixo. O autor explicou à BBC.News que tal obra “tinha qualquer coisa de parque infantil público, podia ver-se nela uma espécie de cobra ou assim”. O objectivo seria “criar uma coisa de tal forma real que não parecesse uma obra de arte”. Arte?

Nota: Este texto é dedicado aos "almeidas" portugueses. Força, vocês são a nossa esperança…

quinta-feira, março 17, 2005

Prosa

de Michel Deguy logo pela manhã. Bom Dia !!

PROSE

Tu me manques mais maintenant
Pas plus que ceux que je ne connais pas
Je les invente criblant de tes faces
La terre qui fut riche en mondes
(Quand chaque roi guidait une île
A l’estime de ses biens (cendre d’
Oiseaux, manganèse et salamandre)
Et que des naufragés fédéraient les bords)

Maintenant tu me manques mais
Comme ceux que je ne connais pas
Dont j’imagine avec ton visage l’impatience
J’ai jeté tes dents aux rêveries
Je t’ai traité par-dessus l’épaule

(Il y a des vestales qui reconduisent au Pacifique
Son eau fume C’est après le départ des fidèles
L’océan bave comme un mongol aux oreillers du lit
Charogne en boule et poils au caniveau de sel
Un éléphant blasphème Poséidon)

Tu ne me manques pas plus que ceux
Que je ne connais pas maintenant
Orphique tu l’es devenu J’ai jeté
Ton absence démembrée en plusieurs vals
Tu m’as changé en hôte Je sais
Ou j’invente

terça-feira, março 15, 2005

Vitorino Nemésio

foi provavelmente o maior poeta português do século XX.

Semântica Electrónica

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

Vitorino Nemésio

sexta-feira, março 11, 2005

Nau Catrineta

Com a devida vénia, aqui reproduzimos

- Lá Vem a Nau Catrineta ( 39 )





Lá Vem a Nau Catrineta

que tem muito que contar

com tricórnio de côr preta


D. José a comandar

D. Costa trata de ver

se corre tudo a preceito

D. Diogo vai escolher

os aliados de peito

D. Cunha juntou-se ao Pinho

dois em um, está bom de ver

p'ra contar o dinheirinho

que o baú vai receber


D. Luís limpa os canhões

D. Correia é enfermeiro

a Lurdinhas dá lições

a tudo que é marinheiro

D. Jaime é o despenseiro

D. Gago lê as estrelas

D Lino faz de pedreiro

D. Correia limpa as velas

D. Vieira é o tenente


mais querido da marinhagem

é ele que paga à gente

em cada mês de viagem

D. Pedro de pé à ré

transmite pr'à populaça

aquilo que D. José

ordena pois que se faça

D. Augusto é o papagaio

escolhido p'lo Capitão


D. Alberto é o lacaio

encarregue da prisão

A Dª Isabel de Lima

tem tarefa desgastante

escada abaixo, escada acima

que a cultura é importante

P'ra compôr o ramalhete

das flores do Capitão

só faltava o mandarete


quem é ele?...D. Lacão



É esta a tropa fandanga

que promete à Catrineta

que o discurso da tanga

já foi posto na gaveta

Com estes novos doutores

vai ser um sempre a aviar

ouvi agora senhores


uma história de pasmar





Era tempo de ocupar

camarotes e beliches

eram novos, a estrear

bem confortáveis, bem fixes

É claro que os tenentes

ocupavam camarotes

o resto das outras gentes


os beliches, mais fracotes



O grosso da marujada

toda ao monte, pois então?

pelo convés espalhada

com os costados no chão

Há séculos que assim era

sempre assim fôra vivido

a vida dura e austera


tinham há muito assumido



"...Falta muito para zarpar?

ó piloto do inferno?

eu quero é fazer-me ao mar

que em terra não me governo

o Banco levou-me a casa

o fisco o meu carrinho

a mulher bateu a asa


deixou-me a falar sozinho"...



"...Foi bem feito,meu sacrista!

quem te mandou ser otário?

querias ser galo de crista

foste frango de aviário

elegeste um trapalhão

D. Burroso, essa vedeta

para ser ele o Capitão


da bela Nau Catrineta...



...Em vez da prata e do oiro

que dizia ir trazer

afundou foi o tesoiro

e deu à sola a correr

Depois foi D. Santanás

com ele foi um fartote

já percebes porque estás


não de tanga, mas pelote?"...



Calou, seus fala-barato

vós sois piores que peixeiras

e toca a dar ao sapato

acabar com as brincadeiras

uma encomenda selada

vai chegar via postal

vem do Caldas enviada


p´ra D. Diogo Amaral



Assim que ela cá chegar

quero ser logo avisado

aquele que a entregar

vai levar outro recado

D. José me confiou

esta tarefa importante

escusado dizer que estou


bem por demais radiante



Irei dizer ao carteiro

que diga de uma assentada

ao marmelo que primeiro

no Caldas vir à entrada:

De D. José venho a rogo

informar-vos em geral

que o quadro de D. Diogo


de Freitas do Amaral

foi com prazer recebido

logo,logo colocado

no local que lhe é devido

prontamente preparado



D. Paulinho a sua acção

foi a de um puto de escola

ou você é parvalhão


ou não bate bem da bola

mas pode ficar ciente

depois desta brincadeira

pode haver na sua gente

quem espete o seu na lixeira

Autor: Zé do Telhado - in: www.tadechuva.weblog.com.pt - Blogue: Tadechuva II

Solidariedade





Madrid, um ano depois


A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos


Sophia de Mello Breyner Andresen