Morreu há um ano.
António Lobo Antunes escreveu o seguinte em Maio de 2004 numa crónica da Visão:
«O poeta Eugénio de Andrade está muito doente. É meu amigo e não tenho coragem de o visitar. Quando ia à sua casa, no Passeio Alegre, um espaço de cuidadosa brancura diante das palmeiras e do mar, recebia-me com vinho fino, biscoitos, livros, pequenas atenções que me tocavam, conforme me tocava a sua delicadeza, a sua fidalguia. A mesa de mármore para escrever. Nunca me disse mal de ninguém e a vaidade que o habitava, tão ingénua, comovia-me. (...) A sua solicitude e a sua ternura em relação a mim eram infinitas. Já doente e estando eu em Roma para um prémio, o padre e poeta José Tolentino Mendonça, que ele apreciava grandemente e é um dos poucos que admiro e respeito, contava-me que o Eugénio o chamava, preocupado que eu estivesse bem. Punha, na camaradagem, um desvelo fraterno (...) Dele recebi, durante anos e anos, inúmeras provas de estima. Censuro-me não o visitar agora; é que não suporto vê-lo acabar assim, reduzido a um pobre fantasma titubeante. A ele, que tanto prezada a beleza e a sua própria beleza (o Eduardo Lourenço, amigo de ambos - E então chegou-nos a Coimbra aquele Rimbaud) a doença resolveu destruí-lo, horrivelmente, no que mais lhe importava, tornando-o um Rimbaud desfigurado, dependente, trágico (...). Ao Eugénio prefiro lembrá-lo como o conheci: orgulhoso, altivo, falando-me de jacarandás e frésias, amando (e era verdade) o 'repouso no coração do lume'. E, depois, havia pequenos actos que o definiam inteiro: uma das ocasiões em que fui ao Porto encontrei um livro de Jorge de Sena, um livro póstumo, horrível, em que Sena atacava companheiros de viagem (Cesariny e Vitorino Nemésio, por exemplo, muito melhores artistas do que ele) de um modo tão vil que me indignou. Referi o livro ao Eugénio. Ele ficou longamente em silêncio e, depois, tirou o seu exemplar de baixo de um móvel e poisou-o no sofá. Segredou - Tinha-o aqui escondido, sabe, porque não queria que pensasse mal do Jorge. (...) Reparo, agora, que estou a relatar tudo isto no passado, como se o Eugénio tivesse morrido. Talvez porque o homem que continua vivo não é ele. Talvez por pudor meu. Talvez porque o fim de um amigo me seja difícil. (...)»
terça-feira, junho 13, 2006
terça-feira, março 21, 2006
terça-feira, março 14, 2006
terça-feira, março 07, 2006
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Polícias e Cartoons: Diferenças e Semelhanças
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Mordomias
Como já calculávamos a estadia no Brasil da Fátima Felgueiras foi paga pelo estado português. Cinquenta mil euros devem ter servido para umas caipirinhas, uns relaxamentos, umas passeatas, umas refeições, ...
Segurança Social
Terei ouvido bem aquele ministro baixote afirmar ontem na Assembleia da Reública que a Segurança Social dá lucro? Então em que é que ficamos? Os nossos impostos servem ou não para pagar as nossas reformas? Parece-me que nos continuam a gozar...
Serão aceites resultados combinados?
A proposta do Prof. Freitas do Amaral de um campeonato euro-árabe de futebol é extraordinária. Todos nós entendemos de futebol. Coloquemos a seguinte questão ao nosso extraordinário ministro dos Negócios Estrangeiros: o que acontece se formos nós a ganhar?
quarta-feira, janeiro 04, 2006
Dignidade
Sampaio podia acabar o mandato com dignidade? Poder, podia mas fazer de um simples ministro o seu interlocutor para discutir a questão EDP não lembra ao Diabo. Julguei que o seu interlocutor seria o primeiro-ministro mas, pelos vistos, não tem de ser... Se permanecesse muito mais tempo em Belém ainda receberia um director-geral...
Cáceres Monteiro
Na minha adolescência, ele foi um verdadeiro Mestre na arte de bem escrever e uma referência no mundo do jornalismo. Eram os tempos de "O Jornal", mais tarde a "Visão". Dificilmente será esquecido.
Boas festas
Serve o presente post para agradecer todas as mensagens de Boas Festas chegadas ao autor do blog. Sinceramente, obrigado!
sexta-feira, outubro 14, 2005
O desemprego
Gordon Brown escreveu sobre a questão um texto que vale a pena ler: Global Europe: full-employment Europe.
quarta-feira, setembro 21, 2005
Simon Wiesenthal ( 1908 - 2005 )
O Mundo deve muito a este homem. Que nunca se ignore aquilo que ele combateu.
A Simon Wiesenthal, consciência da shoah. Obrigado.
terça-feira, agosto 23, 2005
Diferenças...
Diferenças/semelhanças entre dois Aeroportos...
Áreas:
Aeroporto de Málaga: 320 hectares,
Aeroporto de Lisboa: 520 hectares.
Pistas:
Aeroporto de Málaga: 1 pista,
Aeroporto de Lisboa: 2 pistas.
Tráfego (2004):
Aeroporto de Málaga: 12 milhões de passageiros, taxa de crescimento 7% a 8% ao ano.
Aeroporto de Lisboa: 10,7 milhões de passageiros, taxa de crescimento 4,5% ao ano.
Soluções para o aumento de capacidade:
Málaga: 1 novo terminal. Investimento de 191 milhões de euros. Capacidade de 20 milhões de passageiros/ano. O aeroporto continuará a 8 Km da cidade e a ter uma só pista.
Lisboa: 1 novo aeroporto. Investimento de 3000 a 5000 milhões de euros. Solução faraónica a 40 Km da cidade.
Áreas:
Aeroporto de Málaga: 320 hectares,
Aeroporto de Lisboa: 520 hectares.
Pistas:
Aeroporto de Málaga: 1 pista,
Aeroporto de Lisboa: 2 pistas.
Tráfego (2004):
Aeroporto de Málaga: 12 milhões de passageiros, taxa de crescimento 7% a 8% ao ano.
Aeroporto de Lisboa: 10,7 milhões de passageiros, taxa de crescimento 4,5% ao ano.
Soluções para o aumento de capacidade:
Málaga: 1 novo terminal. Investimento de 191 milhões de euros. Capacidade de 20 milhões de passageiros/ano. O aeroporto continuará a 8 Km da cidade e a ter uma só pista.
Lisboa: 1 novo aeroporto. Investimento de 3000 a 5000 milhões de euros. Solução faraónica a 40 Km da cidade.
segunda-feira, julho 25, 2005
Será verdade...
que a esquerda portuguesa é original, refrescante, inovadora, surpreendente, diversificada, lúcida e está sempre virada para o futuro ?
que, caso ganhe as eleições, Soares vai acumular a reforma de Presidente da república com o ordenado de Presidente da República ?
que Soares tenha declarado em Dezembro de 2004: "Basta, não assumirei mais cargos políticos." ?
que Sócrates vai alterar radicalmente a idade da reforma ?
que Veiga Simão substituirá em breve a ministra da Educação ?
que Scolari não confirma nem desmente a chamada de Eusébio à selecção ?
que Sampaio se candidatará à Presidência da República em 2030 ?
que a Ota vai para a frente "por causa dos terrenos" ?
que Diana Andringa tenta provar não ter havido assaltos nos comboios da Linha de Sintra ?
que, caso ganhe as eleições, Soares vai acumular a reforma de Presidente da república com o ordenado de Presidente da República ?
que Soares tenha declarado em Dezembro de 2004: "Basta, não assumirei mais cargos políticos." ?
que Sócrates vai alterar radicalmente a idade da reforma ?
que Veiga Simão substituirá em breve a ministra da Educação ?
que Scolari não confirma nem desmente a chamada de Eusébio à selecção ?
que Sampaio se candidatará à Presidência da República em 2030 ?
que a Ota vai para a frente "por causa dos terrenos" ?
que Diana Andringa tenta provar não ter havido assaltos nos comboios da Linha de Sintra ?
quinta-feira, junho 30, 2005
Os Quinhentos
Escrito por Eduardo Pitta em daliteratura.blogspot.com
No momento em que a SIC Notícias deu o «directo», a perplexidade foi geral. Um arrastão na praia de Carcavelos? Envolvendo 500 indivíduos? O que é um arrastão...? Explicada a natureza do arrastão, a televisão, o mais que conseguiu, foi entrevistar banhistas que «não tinham» visto nada, e um empregado de bar, ou coisa parecida, que relatou vagamente o sucedido, referindo «centenas de pessoas». Percebeu-se logo que dizia «pessoas» para não dizer negros. Entalada entre o Forte de São Julião da Barra e a Ponta da Rana, a praia de Carcavelos tem um areal generoso: quilómetro e meio de ponta a ponta, cem metros de largo em dois terços da extensão. É a maior praia da linha do Estoril, só ultrapassada na região de Lisboa pela Costa da Caparica. Cabe lá muita gente: 30 mil banhistas foi o número apontado para essa tarde. Era o feriado do 10 de Junho, o dia estava tórrido. Não sei se o número é exacto. Sei que bastava metade desse número para impossibilitar, repito, impossibilitar, uma «maratona» de 500 indivíduos. Quinhentos indivíduos é o equivalente a quatro companhias do exército, ou, se preferirem, o equivalente a um batalhão (4x125). Ninguém, nos media, parou um minuto para pensar na evidência: o gang era um batalhão... Com o areal coberto, como é que um batalhão atravessa a praia? Passa por cima. À bruta. E ninguém reage? Afinal de contas, o arrastão não é uma dança de salão. O método não era de excluir. Mas como de tudo resultaram três feridos (um polícia, uma mulher que cortou o pé esquerdo num caco de vidro, e uma rapariga que levou uma cacetada por engano), um queixoso (um emigrante do Leste que ficou sem o fio de ouro), e três ou quatro detenções sem consequência, temos de concluir que foi um curioso arrastão. Tão curioso que os 500 indivíduos desapareceram todos num ralo. Já tínhamos a inventona, agora temos também a arrastona. Até aqui tudo releva do «disparate»: inépcia jornalística, contra-informação, etc. No dia seguinte, a BBC e a CNN mostraram imagens da polícia no areal, arma em riste, e grupos de rapazes negros. Mais histerismo. Anteontem os 500 já eram 70, e hoje parece que são «perto de 40». O busílis não é o arrastão. O busílis é que o arrastão chegou ao Parlamento num tom que não prenuncia nada de bom: «500 delinquentes negros», adjectivos fortes, etc. Aquilo que parecia uma «manobra» falhada (muito mal explicada pela polícia), uma «manobra» que os media «venderam» sem se dar ao trabalho de tentar juntar as pontas soltas, ganha contornos extremamente inquietantes. O pior é que pode ser um ponto de não-retorno.
No momento em que a SIC Notícias deu o «directo», a perplexidade foi geral. Um arrastão na praia de Carcavelos? Envolvendo 500 indivíduos? O que é um arrastão...? Explicada a natureza do arrastão, a televisão, o mais que conseguiu, foi entrevistar banhistas que «não tinham» visto nada, e um empregado de bar, ou coisa parecida, que relatou vagamente o sucedido, referindo «centenas de pessoas». Percebeu-se logo que dizia «pessoas» para não dizer negros. Entalada entre o Forte de São Julião da Barra e a Ponta da Rana, a praia de Carcavelos tem um areal generoso: quilómetro e meio de ponta a ponta, cem metros de largo em dois terços da extensão. É a maior praia da linha do Estoril, só ultrapassada na região de Lisboa pela Costa da Caparica. Cabe lá muita gente: 30 mil banhistas foi o número apontado para essa tarde. Era o feriado do 10 de Junho, o dia estava tórrido. Não sei se o número é exacto. Sei que bastava metade desse número para impossibilitar, repito, impossibilitar, uma «maratona» de 500 indivíduos. Quinhentos indivíduos é o equivalente a quatro companhias do exército, ou, se preferirem, o equivalente a um batalhão (4x125). Ninguém, nos media, parou um minuto para pensar na evidência: o gang era um batalhão... Com o areal coberto, como é que um batalhão atravessa a praia? Passa por cima. À bruta. E ninguém reage? Afinal de contas, o arrastão não é uma dança de salão. O método não era de excluir. Mas como de tudo resultaram três feridos (um polícia, uma mulher que cortou o pé esquerdo num caco de vidro, e uma rapariga que levou uma cacetada por engano), um queixoso (um emigrante do Leste que ficou sem o fio de ouro), e três ou quatro detenções sem consequência, temos de concluir que foi um curioso arrastão. Tão curioso que os 500 indivíduos desapareceram todos num ralo. Já tínhamos a inventona, agora temos também a arrastona. Até aqui tudo releva do «disparate»: inépcia jornalística, contra-informação, etc. No dia seguinte, a BBC e a CNN mostraram imagens da polícia no areal, arma em riste, e grupos de rapazes negros. Mais histerismo. Anteontem os 500 já eram 70, e hoje parece que são «perto de 40». O busílis não é o arrastão. O busílis é que o arrastão chegou ao Parlamento num tom que não prenuncia nada de bom: «500 delinquentes negros», adjectivos fortes, etc. Aquilo que parecia uma «manobra» falhada (muito mal explicada pela polícia), uma «manobra» que os media «venderam» sem se dar ao trabalho de tentar juntar as pontas soltas, ganha contornos extremamente inquietantes. O pior é que pode ser um ponto de não-retorno.
quarta-feira, junho 22, 2005
Haverá país como este?
(Clicar na imagem)
ESTA imagem continua actual, cinco anos depois.
Foi-me enviada com a seguinte explicação:
«Fui recentemente aos Correios na Baixa de Lisboa e fui atendida por uma dessas novas funcionárias dos Palops. (...) perguntou o nome para colocar no recibo.
Sem dar importância, disse-lhe que deixasse em branco. Agora poderão ver (...) o que a funcionária escreveu no local do meu nome.
Maria Orlanda da Fonseca Rodrigues»
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