terça-feira, maio 03, 2005

As Nossas Ruas

San Giorgio del Sannio é o nome de uma pequena cidade italiana perto de Nápoles. Num esforço realmente imaginativo para ultrapassar a grave situação financeira, o seu Presidente da Câmara acaba de colocar à venda o nome de algumas dezenas de ruas. Os preços variam entre dez mil euros na periferia e os quinze mil euros no centro da cidade. O objectivo é a renovação do cinema municipal e a construção de um lar de idosos, numa cidade com dez mil habitantes. Não se pense que se pode escolher qualquer designação. Contra a vontade daqueles que já pensavam em Avenida Cesare Maldini ou Praça Ferrari, o município só aceita o nome de antigos habitantes, entretanto falecidos. Desta forma, Giancarlo Cappozzi pôde atribuir uma rua à memória de seu pai, que foi médico em San Giorgio del Sannio.
Leio a notícia junto à estátua de António Augusto da Silva Martins que dá o nome à mais importante artéria do Rossio e lembro-me de Cesário Verda, agora que passam cento e cinquenta anos do seu nascimento. Fernando Pessoa, via Alberto Caeiro, dizia sobre Cesário: “Ele era um camponês que andava preso em liberdade pela cidade. Andava na cidade como quem anda no campo.” E lembro-me de Saramago que, desde 2001, dá o nome a uma biblioteca e a uma rua em Rivas, perto de Madrid. O nosso Nobel evocou, na altura, determinada rua da Azinhaga, freguesia ribatejana onde nasceu e onde jogou à bola em menino. E contou que mais tarde se mudou para Lisboa onde veio “morar na rua E”. Sem mais nem menos. Simplesmente E. Quando habitamos determinado espaço, não deveríamos merecer mais do que uma simples letra? Que nome daria Saramago à sua velha rua da bola de trapos, do pião, da apanhada, se a autarquia seguisse o exemplo de San Giorgio del Sannio?
Encontro com alguma regularidade toponímia curiosa. Em Évora existe a rua do Imaginário, em Viseu a do Amor de Perdição, em Vilamoura a das Estrelas, em Sesimbra a dos Naufrágios, em Leça a dos Dois Amigos em homenagem à amizade entre António Nobre e Alberto de Oliveira, no Porto a das Musas, chamada antes Viela dos Abraços. Ainda do ponto de vista literário, Eça tem a rua das Flores que dá nome à tragédia e Mário de Carvalho o Beco das Sardinheiras. Cesário, por exemplo, nasceu na rua da Padaria mas desconhece-se o local exacto, faltando também a placa alusiva ao acontecimento.
Os nossos dias stressantes e vazios afastam para longe, para muito longe, os simples passeios para lá das florestas de betão. Avistar os “ramalhetes rubros das papoulas” fica assim mais difícil.

3 comentários:

Anónimo disse...

Excellent, love it! Athabasca fishing

Anónimo disse...

best regards, nice info » » »

Anónimo disse...

Keep up the good work »